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sábado, 7 de fevereiro de 2009

Crime e Castigo


Este romance de Fiódor Dostoiévski é soberbo em todos os pormenores, absolutamente divinal nas entrelinhas (e no resto).

Datado de 1866, narra a história de Rodion Romanovitch Raskolnikov, um homem pobre que aspira a grandeza enquanto ser humano. Esta personagem carrega o peso da corrente filosófica e literária existencialista, que considera cada um como um ser único, responsável pelos seus actos e consequente destino.

"A existência precede a essência" na medida em que é através da nossa existência que nos vamos conhecendo e constantemente redefinindo o nosso pensamento. Ou seja, temos em nosso poder uma imensa liberdade, fazemos as nossas escolhas, traçamos o nosso rumo, definimos o que é, para cada um de nós, o sentido de responsabilidade.

A premissa de atingir a salvação através do sofrimento (cerne da obra em questão), corrobora estas linhas de pensamento filosófico.

Raskolnikov propõe-se fazer algo que, em sua opinião, mude a sociedade. Assim, e numa constante luta interior, mata uma velha agiota e a sua irmã.

É consumido, então, pela culpa e sofrimento, aos quais se segue o arrependimento e a confissão (salvação).

A visão do autor sobre a religião está muito presente no romance, especialmente quando a personagem de Sônia (uma mulher que nunca abandona Raskolnikov) compartilha a leitura de passagens do Novo Testamento com o mesmo.

A personagem de Svidrigailov é, possivelmente, uma das mais niilistas Dostoiévski.

Os dramas psicológicos de Raskolnikov prendem o leitor de forma subliminar.

É, sem dúvida, uma obra obrigatória.


Sara Toscano

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Story, by Robert Mckee


Robert Mckee é um professor de escrita criativa, popular pelo seu "Story Seminar" (que vem agora a Portugal, em Novembro deste ano), desenvolvido aquando da sua experiência como professor na University of Southern California. Mckee é o autor da bíblia dos guionistas, Story: Substance, Structure, Style and the Principles of Screenwriting. Nesta obra, o trabalho de guião é analisado ao pormenor, com maior relevância para a estrutura narrativa como um todo, com diversas partículas e possibilidades que se podem escolher e seguir.

Basicamente, Mckee dá-nos toda a técnica para contar histórias (e não é isso mesmo que faz um guionista?); desde fontes de inspiração, registos escritos, géneros cinematográficos, estrutura do texto, formatação, personagens, substâncias de uma história, a divisão em Actos (Syd Field), o design das cenas, a sua composição, o inciting incident, a crise, o clímax, a resolução, os princípios antagónicos, a exposição, os problemas, contratempos e gaps, o método, os diálogos, a poética aristotélica, entre muitas outras, todas de extrema importância.

Para Mckee, uma história é sobre princípios, não regras (sabemos como é que as coisas funcionam, mas as regras existem para ser quebradas); é sobre formas universais (que façam sentido, de alguma forma, em qualquer parte do Mundo); é sobre arquétipos e não estereótipos (os estereótipos são redutores, os arquétipos universalmente reconhecidos); é sobre persistência, não atalhos (é necessário dispender de uma quantidade enorme de tempo e esforço numa história); é sobre as realidades da escrita, não os seus mistérios (desde Aristóteles e a Poética); é sobre Arte, não mercado; é sobre respeito, não desdém pelo espectador (ter sempre presente que o espectador já viu tudo); é sobre originalidade, não duplicação (atenção às escolhas que são feitas).

Story é um livro fundamental, especialmente para quem quer seguir esta área.


Sara Toscano

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O Sonhador

Ian McEwan, o autor inglês de Cães Pretos, Amesterdão, A Criança no Tempo, O Jardim de Cimento, Expiação e A Praia de Chesil, apresentou em 1994 o seu segundo romance para crianças, The Daydreamer ou, em português, O Sonhador. O Sonhador foi o meu primeiro livro de McEwan e despertou-me rapidamente o interesse para as suas restantes obras. Não se pense que por ser para crianças não o devemos ler. A maravilhosa imaginação e ideias contidas nas suas páginas, são inspiradoras para mentes de todas as idades.

A personagem principal é um rapazinho de 10 anos chamado Peter e é nesta personalidade que Ian McEwan projecta a sua. A mente de Peter leva-nos por um mundo vastíssimo e rico em imaginação e aventuras, contendo todas as perguntas e respostas que alguma vez, consciente ou inconscientemente, já nos fizemos. Em sete episódios, o escritor Peter Fortune, já em adulto, revê as secretas aventuras e metamorfoses de infância. Ao viver, algures, entre o sonho e a realidade, Peter sofre transformações fantásticas: troca de corpo com o gato velho lá de casa, tem uma batalha de bonecas furiosas ou então encontra um creme na gaveta de cozinha que quando espalhado faz desaparecer as pessoas.

O Sonhador está maravilhosamente bem escrito, elaborado e imaginado, com o poder de nos cativar a cada página que viramos. As ideias que McEwan teve, aliás, que Peter tem, ficam-nos para sempre na memória.




Pedro Xavier

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A Morte de Ivan Ilitch

Em A Morte de Ivan Ilich, de Lev Tolstoi, a personagem principal, Ivan, funcionário público do sistema judicial da Rússia czarista, leva uma vida de dor física, resultado de uma angústia mental que o consome. A doença fá-lo passar por diversos sintomas, muitos devido ao stress mental a que está sujeito, no entanto, nunca descobre que a origem do seu sofrimento é essencialmente interna. É descrita como a repressão e a resistência a uma determinada ideia pode ter como consequência o sofrimento físico. O próprio Ivan reconhece que o seu corpo reagiu à dor vinda de fora (infligida por outros) e concentra-se na cura através da psicanálise, para além de se tentar curar pela medicina conhecida.

A primeira era da vida de Ivan é vivida repleta de contentamento mas, quando entra na idade adulta, sucumbe à pressão social de ter de se casar. Casa com uma mulher chamada Praskóvia Fiódorovna, “de boa família” e com “algumas propriedades em seu nome”, que afirma estar perdidamente apaixonada por ele, apesar da falta de paixão recíproca. Ivan é indiferente ao casamento e à sua nova mulher, não está particularmente entusiasmado mas também não é tiranizado por ele. O casamento acaba por se tornar uma maneira de viver, como qualquer outro hábito. Depois de descobrir um lado mais desagradável na persona de Praskóvia, chega à conclusão de que estará preso àquele casamento até ao fim dos seus dias. À procura de uma fonte alternativa de felicidade, focaliza grande parte dos seus dias na sua carreira, para se afastar daquela amarga situação que faz parte da sua vida. A reviravolta na história ocorre quando, ao decorar a nova casa que o seu cargo lhe permite ter, ao subir o escadote, «recuou e caiu, mas como homem forte e ágil, segurou-se e apenas chocou de flanco contra o fecho de uma janela». Pouco a pouco, a doença resultante da queda torna-o incapaz de desfrutar as riquezas e o convívio em sociedade que os anos de esforço e a consequente ascensão social lhe haviam sido oferecidos.

Deste ponto para a frente, Ivan passa por episódios incrementalmente dolorosos à medida que envelhece e torna-se ainda mais descontente com a sua vida familiar. Aquilo que começou por «um gosto estranho na boca e um certo desconforto no lado esquerdo do ventre», expandiu-se em dores insuportáveis que intoxicam o seu corpo, começando pelo peito e que, por vezes, o levavam à total imobilização, acompanhada por uma irritante irritabilidade. O seu sofrimento faz com que reflicta sobre a efemeridade da vida e a inevitabilidade da morte. A solução apresentada para se ultrapassar a dor física é viver a emoção de uma memória reprimida, verbalizando-a. Ao confrontar os pensamentos desagradáveis dessa memória à situação dolorosa que se vive, uma pessoa é capaz de superar desse momento traumático e tornar mais suportáveis os sintomas de doença física. A fonte inconsciente da doença, manifestada pela dor física, acaba por torturar interminavelmente Ivan Ilitch. Tivesse ele reconhecido que a sua dor era obra da sua miserável vida familiar, a sua consciência teria sido aliviada deste ressentimento reprimido.

Conhecido pelos seus romances Guerra e Paz e Anna Karenina, Lev Tolstoi é considerado um dos maiores escritores do século XIX. Os seus contemporâneos olharam para obra como uma crítica a um certo materialismo banal e hipócrita que regia a sociedade russa da época. A personificação de tal crítica é apresentada, não só pelos colegas de profissão, mas essencialmente pela mulher de Ivan, que o crítica implacavelmente a partir do momento em que o vê enfermo numa cama.


O destino de Ivan não só é apresentado no título da obra assim como, imediatamente, no primeiro capítulo, passado na casa do falecido, onde se desenrola o velório. A estrutura narrativa é de tal forma encadeada de maneira a manter o interesse do leitor sempre desperto até ao desfecho final. A universalidade da temática da morte é responsável por uma identificação imediata do leitor com os episódios da doença de Ivan, uma vez que são experiências comuns a todos os seres humanos.

A Morte de Ivan Ilitch é uma obra sobre a enfermidade espiritual, o sofrimento físico e a superação pelo crescimento e salvação moral através da redenção pelo sofrimento, até se alcançar a verdade.

“- E a morte? Onde está ela?

Procurava o seu habitual medo, o anterior medo da morte e não o encontrava. Onde está ela? Qual morte? Não tinha medo nenhum, porque também não havia morte.

Em lugar da morte havia uma luz.

- É então isto! – disse ele de súbito em voz alta. – Que alegria!”

Tal como diz António Lobo Antunes no prefácio da edição da Dom Quixote, A Morte de Ivan Ilitch é “uma das maiores obras-primas do espírito humano” e coloca a dúvida: “trata-se de uma obra sobre a morte ou de uma obra que nega a morte?”.

Pedro Xavier

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Sweeney Todd - várias versões de uma história


1400 - uma balada medieval francesa narra a história de um terrível barbeiro; esta balada era cantada pelas mães parisienses para amedrontar os filhos desobedientes.

1825 - a revista The Tell-Tale Magazine publica A Terrible Story of the Rue de la Harpe, a versão inglesa da história de um barbeiro assassino, recolhida dos Arquivos da polícia francesa.

1846 - a história de Sweeney Todd surge pela primeira vez em The String of Pearls, a Romance de Thomas Peckett Prest.

1847 - esta história de Peckett Prest é adaptada ao teatro por George Dibdin Pitt, em forma de melodrama; estreia no Britannia Theatre, em Londres, e o papel de Sweeney Todd é representado por Mark Howard.

1862 - uma nova versão teatral da história, da autoria de Frederick Hazelton, é apresentada no Bower Saloon em Lambeth e no Pavillion Theatre em Mile End; George Yates desempenha o papel de Sweeney Todd.

1926 - o melodrama de Dibdin Pitt é adaptado ao cinema em forma de comédia burlesca, num pequeno filme mudo do qual não resta nenhuma cópia.

1928 - com argumento baseado nos melodramas de Pitt e Hazelton, é rodado um segundo filme sobre Sweeney Todd, interpretado por Moore Marriott; nesta versão, Todd não é preso pelos seus crimes porque acorda no fim, descobrindo que tudo tinha sido um pesadelo.

1932 - a história de Sweeney Todd é adaptada a peça radiofónica, numa versão de J.P. Quaine.

1936 - surge o primeiro filme sonoro sobre Sweeney Todd, intitulado Sweeney Todd, The Demon Barber of Fleet Street, desempenhado por Tod Slaughter.

1945 - Tod Slaughter representa o papel do terrível barbeiro até à sua morte, em 1956; a popularidade da personagem dramática deve-se a este actor.

1959 - John Cranko faz a coreografia do bailado Sweeney Todd, com música de Malcolm Arnold.

1963 - a história de Sweeney Todd surge em romances como Devlin The Barber de B.L. Farjeon e em bandas desenhadas; a personagem aparece em Casas de Horrores e Castelos Fantasmas de feiras populares.

1965 - Com o título The Daydreamer in the Dark, a história de Todd integra a série de televisão Mystery and Imagination, centrando-se o conflito na consciência de Sweeney.

1968 - Christopher Bond, um jovem actor britânico, escreve uma nova versão de Sweeney Todd que estreia no Victoria Theatre.

1973 - a versão da peça de Christopher Bond é apresentada no Theatre Royal de Stratford East com encenação de Maxwell Shaw; o compositor norte-americano Stephen Sondheim assiste a este espectáculo e pensa adaptar a peça ao teatro musical.

1979 - Sweeney Todd, o Terrível Barbeiro de Fleet Street, um thriller musical de Stephen Sondheim, estreia a 1 de Março no Uris Theatre em Nova Iorque; é distinguido com os prémios do ano (Tony Awards) e o New York Drama Critics Circle Award para o melhor musical.

1980 - o musical estreia no Theatre Royal Drury Lane, em Londres, com encenação de Harold Prince; conquista também diversos prémios.

1984 - o musical passa a ser apresentado por companhias de ópera: a Houston Grand Opera e a New York City Opera.

1989 - dez anos depois da sua estreia na Broadway, o musical é reposto em Nova Iorque, com uma nova encenação de Susan H. Schulman.

1997 - o musical estreia em versão portuguesa, a 17 de Outubro, no Teatro D.Maria II em Lisboa, com encenação de João Lourenço, direcção musical de João Paulo Santos, Jorge Vaz de Carvalho como Sweeney Todd e Helena Afonso como Sra. Lovett.

1998 - John Schlesinger realiza um filme para televisão intitulado The Tale of Sweeney Todd, com Ben Kingsley.

2000 - em comemoração dos 70 anos de Sondheim, é gravada a versão de concerto do musical, pela New York Philarmonic Orchestra.

2004 - com os próprios actores a cantar e tocar a partitura em cena, o musical estreia no Watermill Theatre em Newsbury, com encenação de John Doyle.

2006 - Joshua St Johnson escreve uma versão de Sweeney Todd para a televisão (BBC), interpretada por Ray Winstone.

2007 - O realizador Tim Burton apresenta no Festival de Veneza alguns minutos da sua adaptação ao cinema do musical de Stephen Sondheim, com Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Alan Rickman, Sacha Baron Cohen e Laura Michelle Kelly. A estreia do filme em Portugal deu-se em Janeiro de 2008.

(retirado da edição Relógio D'água)

Sara Toscano

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Bond à vista

O texto seguinte foi publicado no blog Deuxieme a 30 de Junho de 2008, com o título: «Quantum of Solace - O Trailer.».

Aqui está o trailer da nova aventura de James Bond. As primeiras imagens revelam que a energia inovadora de Casino Royale parece estar para ficar (para além da ligação ser inevitável, uma vez que este filme se inicia horas depois do fabuloso final do filme anterior), e pela força dos diálogos de M com Bond adivinha-se um soberbo argumento, recheado de muita acção. É de relembrar que Quantum of Solace foi escrito por Fleming como um conto, que foi apresentado no livro For Your Eyes Only). A espera mantêm-se até Novembro. Até lá, aqui fica o soberbo trailer.


Francisco Toscano Silva

terça-feira, 17 de junho de 2008

Morder-te o Coração


Este romance, como escreve José Eduardo Agualusa, deve ser manuseado com cuidado por conter emoções, ou como diz Inês Pedrosa, constitui "uma viagem alucinante pelos labirintos do desejo e da solidão".
Verdadeiramente, Patrícia Reis escreve sobre uma obsessão pelo Amor puro que, no fim, se demonstra ridiculamente desprovida de sentido.
Denota-se, ao virar de cada página, uma paixão incomensurável pelas palavras, pelos seus significados, e uma necessidade de encher de segundas intenções as entrelinhas, permeadas de desilusão e sonhos desfeitos.
Um homem que acredita ter encontrado o seu outro Eu numa mulher de quem nada sabe, uma mulher com quem partilhou uma intensa paixão de verão. Ela desaparece e ele decide procurá-la, como se disso dependesse toda a sua vontade de viver.
"O amor visto por um homem tem o poder e a dor das coisas maiores".
O ponto final desta história é cruelmente verdadeiro. Nu e cru.

"Morde-nos, de facto, o coração"


Sara Toscano

segunda-feira, 9 de junho de 2008

A Grafologia, por Herbert Hertz


É interessante saber que existe uma ciência que estuda a relação entre a escrita e a personalidade de quem escreve. Disto nos fala A Grafologia de Herbert Hertz. Tratando-se de uma ciência auxiliar da psicologia, aplicada a áreas como a pediatria, a criminologia ou a orientação profissional, representa também algum interesse para quem deseje saber mais um pouco de si mesmo ou dos outros.

Como qualquer ciência que estude o Homem, ela não é (nem nunca será) perfeita. Na verdade, a existência de uma infinidade de casos, sempre diferentes, sempre muito particulares, impedem uma esquematização absoluta. Já se sabe, há sempre uma excepção. Pode-se, no entanto, estabelecer algumas regras gerais, que se apliquem em variados casos. São essas regras que nos são explicadas por Hertz.

A escrita é definida como "expressão gráfica do pensamento, visto que o acto de escrever não é mais que um movimento da mão orientado pelo cérebro".

Essa escrita é analisada a partir de diversos factores, tais como a forma, a direcção, a pressão, a velocidade, a continuidade, a disposição, a dimensão, a ordem, a harmonia, entre outras.

Tal como qualquer ciência (a medicina, por exemplo), também a grafologia foi inicialmente englobada nas ciências ocultas (ainda para mais, é uma ciência pouco concreta), tendo sido alvo do espírito céptico de muitos homens. Mais tarde, as bases científicas da grafologia foram claramente definidas e as experiências devidamente controladas, de tal modo que já foi instituído um diploma de Estado de Grafologia.

Sara Toscano

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Princesa Encantada da Quimera


Florbela Espanca escreveu, no seu último ano de vida, um Diário que tive oportunidade de ler hoje. As suas últimas palavras foram escritas a 2 de Dezembro de 1930, seis dias antes do seu suicídio, a 8 de Dezembro do mesmo ano, dia em que completava 36 anos de idade.
Neste diário, pode notar-se uma evolução de estados de espírito que explica, de certa forma, o culminar trágico que se conhece.
Muito me tocaram as primeiras linhas escritas pela poetisa no primeiro dia (a 11 de Janeiro de 1930), uma reflexão sobre a desagregação do tempo, que "Não sinto deslizar [o tempo] através de mim, sou eu que deslizo através dele e sinto-me passar com a consciência nítida dos minutos que passam e dos que se vão seguir".
A poetisa queixa-se de não conseguir conhecer-se verdadeiramente ('problema' recorrente de muitos poetas) e, por vezes, sente-se invulgarmente entediada com a vida. "Attendre sans espérer - poderia ser a minha divisa, a divisa do meu tédio que ainda se dá ao prazer de fazer frases".
Em alguns dias dos primeiros meses do Diário, Florbela Espanca mostra-se feliz por estar viva, regozija-se perante acontecimentos que, embora vulgares, lhe parecem carregados de algum simbolismo. Relembre-se, "Viver não é parar: é continuamente renascer".
É muitas vezes invadida de uma nostalgia doce que a faz sentir-se bem.
No entanto, é logo no mês de Fevereiro que Florbela começa a mostrar-se indignada perante a vida e os outros. "Ser doido é a única forma de possuir e a maneira de ser alguma coisa de firme neste mundo".
Já nem mesmo consegue apreciar os romances que lê.
Mostra, por vezes, alguma esperança indefinida, "A vida tem a incoerência de um sonho. E quem sabe se realmente estaremos a dormir e a sonhar e acabaremos por despertar um dia? Será a esse despertar que os católicos chamam Deus?".
Com a chegada do Outono e a proximidade do Inverno, denota-se naquelas linhas uma estranha exultação da morte, como única solução possível. "A morte definitiva ou a morte transfiguradora? Mas que importa o que está para além? Seja o que for, será melhor que o mundo! Tudo será melhor do que esta vida!".
As suas últimas palavras formam uma linha, uma simples linha carregada de tanta coisa...
E não haver gestos novos, nem palavras novas!

Sara Toscano

A Mão No Arado


A Assírio & Alvim publicou, por ocasião do Dia Mundial da Poesia (21 de Março), o pequeno livrito de poesia Orla Marítima e Outros Poemas, de Ruy Belo (em exclusivo para a FNAC). Devo dizer que estas iniciativas são extremamente louváveis (e burro de quem não as aproveita). Eu por mim, tive a sorte de apanhar um exemplar. Não sendo grande especialista no que toca a poesia, deixo-vos aqui, no entanto, aquele que foi, para mim, o mais feliz poema contido na pequena obra, intitulado A Mão No Arado.

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã

Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente
Sara Toscano

terça-feira, 27 de maio de 2008

Alexander Supertramp


Jon Krakauer, um escritor, jornalista e alpinista americano, escreveu O Lado Selvagem, um caso verídico acerca de como Christopher McCandless abandonou a civilização, em busca de uma aventura transcendente, genuína e perigosa.
Depois de ler este livro, que nos fala do percurso detalhado de McCandless através de algumas passagens do seu diário e das pessoas que foi conhecendo pelo caminho (e que muito marcou), parece-me que, na verdade, aquilo que ainda hoje permanece é o mistério que envolve toda a história deste jovem obstinado (à imagem do que sucedeu com outros casos idênticos ao dele).
Chris era um jovem enérgico, idealista, resistente e persistente. Desprezava intensamente o crescente materialismo da sociedade americana. Era extremamente influenciado pelo trabalho de nomes como Jack London, Leo Tolstoy ou Henry David Thoreau. Sonhava abandonar esta sociedade que o repugnava. E foi o que fez.
Isto levanta o tal problema, bastante debatido após a morte de "Alexander Supertramp": aventura ou estupidez?
Muitos dos leitores de Krakauer apresentam uma opinião negativa acerca da morte e da odisséia de McCandless, que apelidam de "algo nada corajoso, apenas estúpido, trágico e inconsciente". Alguns afirmam mesmo que aquilo que o rapaz fez foi, basicamente, cometer um suicídio.
Será?
"Quando se é jovem, é fácil acreditar que aquilo que desejamos é apenas aquilo que merecemos, partir do princípio de que, se se desejar muito uma coisa, consegui-la é um direito concedido por Deus".
"Chris McCandless era um jovem inexperiente que confundiu paixão com visão e agiu de acordo com uma lógica obscura e repleta de falhas".
"Nesse estádio da minha juventude, a morte continuava a representar um conceito tão abstracto como a geometria não-euclidiana ou o casamento. Ainda não tinha consciência da sua terrível condição de definitiva ou da perturbação que podia provocar naqueles que tinham os defuntos no coração. Incomodava-me o mistério sombrio da mortalidade. Não conseguia resistir a enganar os limites do destino e a espreitar para lá da fronteira. A insinuação do que estava escondido nessas sombras aterrorizava-me e, no entanto, no breve olhar, vislumbrava algo de proibido e enigmático que não era menos atractivo do que as suaves pétalas ocultas do sexo de uma mulher. No meu caso - e, creio, no caso de Chris McCandless - isso era muito diferente de querer morrer".
Na realidade, não poderia estar mais de acordo. O que é que há de estúpido na perseguição de um ideal tão forte como aquele de Alexander Supertramp (pseudónimo adoptado por Chris durante a sua aventura)? Só por ser imprudente? Por não ir prevenido? Por desconhecer alguns factos que poderiam ter-lhe salvo a vida? As coisas são mesmo assim. Penso que todos nós, na nossa vida, passamos sempre por uma altura em que seguimos este ou aquele impulso. Foi isso que Chris fez. Apenas em medidas bastante mais avassaladoras. E nesse sentido, teve mais coragem que muitos... Mas isto é uma simples opinião, cada um tem a sua.
Entretanto Chris McCandless deixou, numa folha gasta de contraplacado, uma exultante declaração de independência - memorável:

"Caminha pela terra durante dois anos, sem telefone, sem grupos, sem animais de estimação, sem cigarros, a liberdade total. Um extremista. Um viajante esteta cujo lar é a estrada. Fugiu de Atlanta. Não devereis regressar, «porque não há nada melhor que o oeste». E agora, passados dois anos de vagabundagem, chega a aventura final e mais extraordinária. A batalha em tom de clímax para destruir o falso ser interior e vitoriosamente concluir a revolução espiritual. Dez dias e dez noites de comboios de mercadorias e de boleias trazem-no para o grande norte branco. Sem jamais ter de voltar a ser envenenado pela civilização, foge e caminha sozinho pela terra para se perder na floresta."

Alexander Supertramp
Maio de 1992

Sara Toscano

sexta-feira, 11 de abril de 2008

A Casa Quieta

O nome de Rodrigo Guedes de Carvalho é bem conhecido de todos nós certamente como o de um pivô e não como o de um romancista. O apresentador de informação da estação televisiva SIC, recentemente convertido a ficcionista, tem já vários romances editados. A estreia foi dada com “Daqui a Nada” (1992) vencedor de um prémio de Jovens Talentos, o primeiro de quatro romances que lhe seguiriam. Surgiram, já no século XXI, “A Casa Quieta” (2005), “Mulher em Branco” (2006) e “Canário” (2007). Foi também em 2005 que ficou associado ao filme de terror “Coisa Ruim” por ter assinado o argumento do filme co-realizado pelo irmão Tiago Guedes.


Aqui em análise está a casa que quieta é agitada pelo turbilhão de sentimentos do casal Salvador e Mariana, lisboetas de classe média alta, não querendo filhos aproveitam para viajar frequentemente e, por vezes, visitar família instalada no Canadá. A casa está vazia. A maior parte do romance decorre em Lisboa, onde a cidade iluminada pelo Tejo se torna totalmente cinzenta para apimentar mais um imaginativo e depressivo drama suburbano.


A obra é organizada por construções e desconstruções de capítulos, analepses e prolepses que, parecendo inicialmente confusas, trazem uma estranha sensação estarmos perante um objecto sedutor (e é!), intrigante e coeso no seu enredo que premeia o leitor, tornando-o cúmplice pela simplicidade do entrecruzar inteligente de histórias. O modo de cuidar das palavras e estruturar a sua prosa está muito longe de desapontar, mas não é de todo a mais original. Sente-se, portanto, a influência de vários autores, mais particularmente a do ex-médico escritor António Lobo Antunes, que Rodrigo Guedes de Carvalho reconhece como um dos melhores e uma influência literária permanente. E isso nota-se ao serem revisitados os temas da Guerra Colonial (a loucura pós-guerra do irmão), o relacionamento rígido com o pai, os desencontros de amor, a solidão individual, a morte, as idas às putas, etc.


No entanto, a ideia de ser uma colagem de uma maneira de escrever é totalmente desmentida a partir do momento em que a cada personagem é atribuído um estilo distinto – por vezes, capítulos seguidos tornam-se desafiantes à capacidade de concentração do leitor para acompanhar quem é quem.


O segundo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho é assombroso na sua eloquência, inovador na estética e repleto de verdadeiras emoções cáusticas, reveladoras da maneira de sentir de cada um de nós.


"Pudéssemos viajar, não para lugares longínquos de paisagens tremendas, não ao encontro de outros povos, culturas e cheiros, outras gentes e sabores, mas ao interior uns dos outros." - Rodrigo Guedes de Carvalho

Pedro Xavier

quinta-feira, 10 de abril de 2008

The Kill Bill Diary


Numa daquelas demoradas visitas à Fnac, deparei-me com este livro obrigatório, The Kill Bill Diary - The Making of a Tarantino Classic As Seen Through The Eyes Of a Screen Legend. O amarelo da capa foi o que me chamou a atenção. Por dentro, desatei aos pulos de alegria. Saí de lá com o meu exemplar debaixo do braço.

Agora, depois de o ler, ainda me sinto mais ligada a este fenómeno que é o Kill Bill. E cada vez tenho mais certezas da genialidade incontornável de QT.

Anyways, divagações de parte, este diário foi escrito por David Carradine (o brilhante Bill) que nos fala da sua experiência de ser cortejado por Tarantino para o papel e os subsequentes dois anos que levaram a fazê-lo, da pré-produção à distribuição das duas partes. Temos, obviamente, uma mistura de autobiografia com um behind-the-scenes journal. Isto desde os treinos de artes marciais, às filmagens na China e à paixão por Uma Thurman 'while swinging a steel-tempered Samurai sword at her head'.

É um diário repleto de emoções, verdadeiro, completo e autêntico. A acompanhar, uma série de fotografias tiradas nos cenários e nos sítios por onde andaram, na sua maioria fotografias lindíssimas da autoria de Andrew Cooper, da Miramax.

Carradine não poupa elogios a Tarantino, a Uma, a Annie (a sua dedicada mulher), a Vivica, a Michael Madsen, a Daryl ou a Lucy Liu.. Mas é especialmente sobre o grande realizador que ficamos a saber um pouco mais. E mesmo não tendo lá estado (isso é que era em grande, mas não se pode ter tudo), o bom humor e a boa disposição são contagiantes (sim, esboçei uns quantos sorrisos ao longo da minha leitura). O profissionalismo é óbvio. O resultado fala por si só.

"Somebody said to me somewhere in these travels that Quentin is like a great chef. He takes a big pile of ordinary things that you can find in anybody's garden, and out of them whips up a magnificent feast. Yes, he starts out with common ingredients, but the result is unique, and really tasty."

No doubt about this! A não perder.

Sara Toscano

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Ensaio sobre a Cegueira

"Cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança."

"O mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos."

O “Ensaio Sobre A Cegueira” é a história de uma misteriosa epidemia que causa “cegueira branca” e que se alastra numa cidade sem nome e por quase todos os seus habitantes. Entre os primeiros a ficar cegos está um oftalmologista e alguns dos seus pacientes, que são rapidamente detidos pelas autoridades e largados num já abandonado instituto para doentes mentais.

A mulher do oftalmologista conserva misteriosamente a visão mas, ao ponto de querer estar com o marido, finge estar cega de maneira a ser levada com ele. A partir deste momento torna-se uma testemunha (e uma janela para o leitor) dos horrores da epidemia, ajudando como pode os cegos que a rodeiam. Como a epidemia se alastra rapidamente e as instituições que regem a sociedade começam a falhar, o pequeno grupo de cegos liderados pela mulher do médico tem de se adaptar rapidamente de maneira a sobreviver às terríveis circunstâncias e consequências de um mundo sem visão. Por via dos acontecimentos, com o avançar da narrativa, as condições no asilo tornam-se degradantes e a moralidade começa a não existir. Será a moralidade uma capa turva sob a essência do ser?

Nesta belíssima alegoria escrita por José Saramago, trabalhada a dois níveis, está encerrada uma doutrina moral que vai mais além da cegueira física e das suas consequências: trabalha num plano espiritual ou metafísico, explorando o quão frágil o conceito de sociedade pode ser e o quão facilmente desabam os seus alicerces face ao desastre, seja ele de que origem for. É um exercício num cenário de “e se tal acontecesse”, no qual o escritor faz cair todo o conceito de sociedade, baseando-se principalmente nas situações reais que o ser humano tem de enfrentar – terramotos, tsunamis, incêndios – e que são capazes de destruição extraordinária.

Provavelmente o aspecto mais surpreendente da obra é o seu realismo e claustrofobia que é induzida no leitor. Ao longo de todo o livro, Saramago usa mais uma vez o seu estilo literário - longos parágrafos sem qualquer pontuação – mas, devido à temática da obra, encaixa-se perfeitamente nela, uma vez que num mundo de cegos ninguém sabe quem está a falar, misturando-se então a confusão da narração com a confusão do mundo ficcional. Por esse motivo, ‘a mulher do médico’, ‘o médico’, etc, é a maneira como as pessoas são referidas neste livro. Têm títulos, mas não têm nomes, tornando esta ausência numa obra mais universal.

A obra de José Saramago tem sido muitas vezes comparada com “A Peste”, do existencialista Albert Camus. Após ler as duas, a esta última falta-lhe a riqueza das descrições e as emoções do caos que o Ensaio tem. É, portanto, uma obra a não perder de vista.

"A alegoria chega quando descrever a realidade já não nos serve. Os escritores e artistas trabalham nas trevas e, como cegos, tacteiam na escuridão" - José Saramago

Pedro Xavier

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Christiane F.


Este conhecido pseudónimo, cedo ficou gravado na minha memória. Vera Christiane Felscherinow publicou Os Filhos da Droga em 1978. Até hoje, continua a ser a obra que mais me marcou em todos os sentidos.

A história é um relato de uma vida conturbada. As descrições são cruas e, talvez por isso, tão reais. A decadência inerente ao mundo da droga e da prostituição está muito vincada, chocando o leitor mas abrindo-lhe os olhos, ao mesmo tempo, para esta dura realidade.

Christiane dá-nos um retrato dos podres da sociedade moderna, uma sociedade fria e egocêntrica. Onde vale tudo. Especialmente para tentar enganar a solidão ou a tristeza.

A história é autobiográfica. Christiane, que nasceu e cresceu rodeada de maus sentimentos, acaba por conhecer as pessoas erradas, deixando-se arrastar para a dependência das drogas. Primeiro as leves (haxixe e LSD), depois a heroína. Para sustentar o vício, rouba e prostitui-se. A percepção que o leitor tem do quão miserável e insuportável se torna a sustentação de uma vida assim é terrivelmente real. Dói pensar que há casos assim, às vezes mais perto do que sonhamos.

As tentativas de recuperação da Christiane são louváveis, embora se saiba que nos dias de hoje, com perto de 50 anos, ainda não se conseguiu livrar do vício.

De qualquer forma, Os Filhos da Droga é uma obra a ser lida quase obrigatoriamente, se possível ainda durante a adolescência. Para que haja alguma consciência.


Sara Toscano