terça-feira, 27 de maio de 2008

Alexander Supertramp


Jon Krakauer, um escritor, jornalista e alpinista americano, escreveu O Lado Selvagem, um caso verídico acerca de como Christopher McCandless abandonou a civilização, em busca de uma aventura transcendente, genuína e perigosa.
Depois de ler este livro, que nos fala do percurso detalhado de McCandless através de algumas passagens do seu diário e das pessoas que foi conhecendo pelo caminho (e que muito marcou), parece-me que, na verdade, aquilo que ainda hoje permanece é o mistério que envolve toda a história deste jovem obstinado (à imagem do que sucedeu com outros casos idênticos ao dele).
Chris era um jovem enérgico, idealista, resistente e persistente. Desprezava intensamente o crescente materialismo da sociedade americana. Era extremamente influenciado pelo trabalho de nomes como Jack London, Leo Tolstoy ou Henry David Thoreau. Sonhava abandonar esta sociedade que o repugnava. E foi o que fez.
Isto levanta o tal problema, bastante debatido após a morte de "Alexander Supertramp": aventura ou estupidez?
Muitos dos leitores de Krakauer apresentam uma opinião negativa acerca da morte e da odisséia de McCandless, que apelidam de "algo nada corajoso, apenas estúpido, trágico e inconsciente". Alguns afirmam mesmo que aquilo que o rapaz fez foi, basicamente, cometer um suicídio.
Será?
"Quando se é jovem, é fácil acreditar que aquilo que desejamos é apenas aquilo que merecemos, partir do princípio de que, se se desejar muito uma coisa, consegui-la é um direito concedido por Deus".
"Chris McCandless era um jovem inexperiente que confundiu paixão com visão e agiu de acordo com uma lógica obscura e repleta de falhas".
"Nesse estádio da minha juventude, a morte continuava a representar um conceito tão abstracto como a geometria não-euclidiana ou o casamento. Ainda não tinha consciência da sua terrível condição de definitiva ou da perturbação que podia provocar naqueles que tinham os defuntos no coração. Incomodava-me o mistério sombrio da mortalidade. Não conseguia resistir a enganar os limites do destino e a espreitar para lá da fronteira. A insinuação do que estava escondido nessas sombras aterrorizava-me e, no entanto, no breve olhar, vislumbrava algo de proibido e enigmático que não era menos atractivo do que as suaves pétalas ocultas do sexo de uma mulher. No meu caso - e, creio, no caso de Chris McCandless - isso era muito diferente de querer morrer".
Na realidade, não poderia estar mais de acordo. O que é que há de estúpido na perseguição de um ideal tão forte como aquele de Alexander Supertramp (pseudónimo adoptado por Chris durante a sua aventura)? Só por ser imprudente? Por não ir prevenido? Por desconhecer alguns factos que poderiam ter-lhe salvo a vida? As coisas são mesmo assim. Penso que todos nós, na nossa vida, passamos sempre por uma altura em que seguimos este ou aquele impulso. Foi isso que Chris fez. Apenas em medidas bastante mais avassaladoras. E nesse sentido, teve mais coragem que muitos... Mas isto é uma simples opinião, cada um tem a sua.
Entretanto Chris McCandless deixou, numa folha gasta de contraplacado, uma exultante declaração de independência - memorável:

"Caminha pela terra durante dois anos, sem telefone, sem grupos, sem animais de estimação, sem cigarros, a liberdade total. Um extremista. Um viajante esteta cujo lar é a estrada. Fugiu de Atlanta. Não devereis regressar, «porque não há nada melhor que o oeste». E agora, passados dois anos de vagabundagem, chega a aventura final e mais extraordinária. A batalha em tom de clímax para destruir o falso ser interior e vitoriosamente concluir a revolução espiritual. Dez dias e dez noites de comboios de mercadorias e de boleias trazem-no para o grande norte branco. Sem jamais ter de voltar a ser envenenado pela civilização, foge e caminha sozinho pela terra para se perder na floresta."

Alexander Supertramp
Maio de 1992

Sara Toscano

5 comentários:

Anónimo disse...

INTO THE WILD

A trilha do Eddie Vedder é um dos morangos do bolo. Maravilhosa. Assim como a cenografia, a construção rápida (porém suficiente) dos personagens, etc.

Qto ao filme como um todo...

Como obra de ficção, como uma semente filosófica para questionar a falta de profundidade na visão que o mundo moderno tem da vida = excelente.

Como história verídica de alguém = o tal sujeito McCandless merecia internação em um sanatório. Completamente doido, descompensado, esquizofrênico, maníaco-depressivo, egoísta, etc. Típico produto norte-americano de famílias desequilibradas. Mais um filhinho de papai querendo descobrir o sentido da vida "a la Paulo Coelho" - mas sem os cogumelos alucinógenos.

Com um passaporte americano, ele poderia ter ido para qualquer lugar do mundo. Pq não foi para a África ou para o nordeste brasileiro ajudar crianças famintas? Pq não doou todos os órgãos para quem precisasse? Pq não se graduou e montou uma ONG de verdade para populações de risco?

Ademais, queria tanto experimentar a "liberdade distante da civilização" e foi fazer isso morando dentro de um ônibus com aquecimento, atirando com um rifle semi-automático e coletando água com um recipiente plástico? Fala sério.

Quer experimentar a natureza? Procure qualquer reserva indígena a 10h de barco de Manaus. E vá pelado.

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Alessandro Loiola, MD
http://www.dralessandroloiola.blogspot.com/

thuris disse...

Vi o filme à alguns dias e fiquei impressionado com a história do Supertramp.
E não acho q oq ele fez foi suicídio.
Ele estava apenas correndo atrás dos seus ideais e cada um tem os seus...

Simplesmente Eu! disse...

"Supertramp" viveu a vida como a sentia...em pleno! Uma pergunta?! Porque ninguém comenta uma parte intressante do filme, já perto do fim, quando ele diz (algo do género):"Só se é verdadeiramente feliz quando se partilha a vida com alguém"?. Ele sentiu...e quis voltar! Mas não voltou...Todos nós, já tomamos decisões e tivemos que escolher caminhos...que têm consequências! De modo algum, "supertramp", era depressivo e muito menos esquizofrénico...não se pode "receitar Ritalina ou Prozac" a quem decide viver a vida de maneira diferente.
Diferente aos olhos de alguns ou simplesmente VIVER para outros...
Na minha visão de vida ele VIVEU...e se pensarmos bem...muitos de nós nunca iremos saborear a vida como ela é!
Como "Sociedade" em vez de critica-mos...enventualmente deveria-mos de retirar algo deste "Alexander"! Não?!
Será que esta estória não merece uma atenção especial dos "Pais". Nunca falam dos pais de "alexander"...ele que teve uma infancia dificil...uma familia de fachada e uma má educação e agora fiquem a pensar....Muitos dos problemas que os jovens...adolscentes...crianças e muitos adultos...têm é derivado aos próprios pais! E eu sei do que estou a falar!
E com isto tudo, quero dizer, que vivam a vida a vossa maneira, sem preconceitos...ao sabor da vida! Para que no fim expressem como ele "I have had a happy life and thank the Lord..."

Anónimo disse...

creio que o colega anonimo tenha compreendido mal o objetivo de alexander.

a idéia era encontrar a sua verdadeira essencia, o que segundo ele, só poderia ser encontrado na natureza e na liberdade. não tem nada a ver com ajudar os menos favorecidos.

mas concordo que o personagem seja egoísta, especialmente com relaçao a seus pais, sua indiferença com o sofrimento que estava a causar neles.

mesmo assim é uma estória inspiradora. questionar a monónotona hipocrisia cotidiana da vida civilizada muita gente já fez, mas alexander tomou uma iniciativa! teve vontade de fazer e fez! e sozinho, o que é mais notável.

e no final ele chega a conclusão de que nenhuma alegria vale a pena se não for compartilhada. significa então que ele tinha tomado um caminho errado? é claro que não!!! como teria descoberto isso se não tivesse feito o que fez?
eu só acho que não faria mal ele ter se precavido um pouco mais... e não precisava ter queimado o dinheiro!! mesmo pq depois ele teve de trabalhar p conseguir mais.
e tb não entendi direito pq ele não fez sexo com a tracy.

Anónimo disse...

Foi... e será o filme da minha vida, por muito tempo!

Adorei o filme... e hoje, foi a terceira vez que o vi. :)

É perfeito... uma obra-prima.