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sexta-feira, 25 de julho de 2008

Esta Semana no Cinema...

O texto seguinte foi publicado no blog Deuxieme a 25 de Julho de 2008, com o título: «Estreias da Semana».


O CAVALEIRO DAS TREVAS

A segunda aventura de Batman, novamente concebida pelo olhar de Christopher Nolan, é um objecto que rebenta – literalmente – com todas as ideias e barreiras de conceito da personagem, do seu universo e da adaptação cinematográfica de BD. “O Cavaleiro das Trevas” encaixa na perfeição, sem perder tempo com apresentações, no encadeamento de “Batman – O Início”, (um dos filmes maiores de 2005, munido de fazer um reset ao passado do herói, alimentado anteriormente pelo delicioso expressionismo gótico de Tim Burton e pelos duvidosos circos de néon de Joel Schumacher) e consegue a soberba proeza de ultrapassar todas as qualidades do capítulo anterior, resultando numa magnífica sequela, em tudo superior.

Estamos, garantidamente, perante “a encenação cinematográfica definitiva do Homem-Morcego”, como Jorge Mourinha escreve hoje no Público. De facto, “O Cavaleiro das Trevas” é um novo passo no mundo de Batman e do cinema dos super-heróis, onde tudo gira em Gotham City, uma metrópole com identidade própria, que surge como pano de fundo da acção, e que é tomada de assalto pela personificação do mal absoluto, tornando-se num palco de luta entre o bem e o mal (parecenças com Heat não surgem à toa e são justamente bem empregues), onde o medo e o caos iniciam a sua proliferação pelas mentes e corpos dos cidadãos, que discutem os termos de justiça entre si mesmos e não com as autoridades, que questionam continuamente.


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Existem dois vértices vitais na composição d’ “O Cavaleiro das Trevas”. O primeiro manifesta-se claramente – e num grau de importância superior – nos seus criadores, a dupla dos irmãos Nolan. Jonathan e Chris escreveram o guião, no curto espaço de um ano, com uma noção de dramaturgia e tragédia acima do normal, e que se exprime em dois importantes pontos: o facto de terem composto esses elementos em personagens oriundas da BD, ao mesmo nível com que exploram tudo isso numa base real, num subtil tom pós 11 de Setembro e que pinta soberbamente a realidade em que vivemos e onde as personagens dos comics também mostram ter lugar. Para além da força estrutural do guião, é de salientar a sóbria, mas imponente, realização de Chris, onde o mais curioso ponto de análise surge numa mudança de estilo face ao capítulo anterior (uma mise-en-scène mais clara e elaborada, um ritmo mais pausado e planos verdadeiramente saídos de vinhetas da BD) e no uso da cor (o castanho ferrugento d’ O Início é aqui substituído por um azul hipnótico, e a grandiosidade da acção e a visão caótica e violenta do espaço urbano remete-nos para o melhor de Michael Mann).

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O segundo vértice deste capítulo estende-se ao brilhante trio de personagens principal. Batman é-nos trazido uma vez mais por Christian Bale, que veste e acompanha, com naturalidade e segurança, a maturidade da pele do Homem-Morcego, e que vive aqui dias de amargura e um teste à sua força interior, nunca antes explorado. O seu sentido de justiça e motivação incorruptível mantém-se a todo o custo, mas isso e a obsessão por uma vida normal vão levar consigo um preço muito elevado. Na mesma estrada, encontramos do lado oposto o maior vilão de sempre: Joker, interpretado pelo falecido Heath Ledger. Sem exageros, confirma-se que Ledger é verdadeiramente assombroso, genial, abismal; falamos de uma das maiores composições de uma personagem dos últimos 25 anos (ao nível de um Hannibal Lecter), ele é o rosto maior do caos e da anarquia, e também é, sem dúvida, a maior encarnação de Joker do grande ecrã (sem menosprezo pelo fabuloso Jack Nicholson), que testa constantemente a identidade e sanidade de Batman. Para além do brilhante trabalho do actor, é formidável a forma como ele nos surge e como se mostra; cada origem das suas cicatrizes remete-nos para um passado turbulento e sombrio (curiosamente relativo a comics tão conhecidas como o caso de Piada Mortal, na história da esposa), que funciona perfeitamente para concebermos a deturpada existência do personagem, sem que seja necessário mostrar flashbacks ou utilizar outros meios e quebrar a soberba narrativa, o que nos mostra o Joker como “pleno e absoluto”, pelas próprias palavras de Chris Nolan (Sam Raimi que olhe bem para este exemplo no futuro). Por fim, Harvey “Duas Caras” Dent, surpreendentemente interpretado por Aaron Eckhart, é uma personagem de enorme força ao longo de todo o filme. Falamos de si num registo de tragédia grega, onde a sua perda, sofrimento e transformação valem a Eckhart um dos seus melhores momentos no cinema até hoje. O final dúbio da sua existência não deixa de valorizar o seu lugar numa cidade corrupta e refém do mal, onde o sacrifício se apodera dos inocentes e dos mais bravos.


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Ao olharmos para este leque de mentes atormentadas, verificamos que estas 3 peças vivem interligadas entre si, de uma forma indissociável; se olharmos perto, Batman e Joker são duas faces da mesma moeda – uma infância traumática e abusiva – que se verifica uma linha ténue sobre a fronteira entre o bem e o mal, culpada pelo nascimento de Harvey “Duas Caras” Dent (seja pela malvadez aliciante de Joker como pela inacção de Batman); ao mesmo tempo temos a proeminente questão do nosso herói se debater ferozmente com as “duas caras” da sua própria existência, ao questionar (em conjunto com a cidade que o viu nascer) a sua missão de justiceiro, em simultâneo com o seu lugar de homem que nela quer viver – todos estes dilemas e mistérios, ainda que irónicos, são tudo menos inocentes, e resultam de uma forma absolutamente notável e eficaz, e que pedem ao filme uma segunda ou terceira revisitação, que se torna mais rica.

São inúmeros os momentos fenomenais deste filme, mas entre eles destacam-se o interrogatório a Joker, a conversa de Joker com Harvey no Hospital e ainda o encontro final entre Batman e Joker. Além disso, Hans Zimmer e James Newton Howard compõem uma banda sonora de enorme peso (o tema do Joker é assustador), Nolan filma como poucos, o elenco é todo ele fabuloso (ainda que a beleza e inocência de Katie Holmes não seja igualada por Maggie Gyllenhall, que é, apesar disso, muito competente), o argumento é negro, sólido e complexo e os fardos a carregar são cada vez mais pesados, numa Gotham que está a saque. A maior graça é que tudo isto está a ser “vendido” às massas como um blockbuster mainstream, mas na verdade é tudo, mas mesmo tudo, menos isso.


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Em suma, para além de um verdadeiro épico mascarado de rostos grotescos e almas feridas (onde os géneros noir, policial e thriller se misturam avidamente), Christopher Nolan vai mais longe ao elevar a missão de Batman a um julgamento – até que ponto pode coexistir a justiça institucionalizada com a pessoal, e o que o separa do Joker além dos motivos – e dá-nos um enorme tratado sobre a vingança e as noções de perdão e sacrifício, tão sombriamente encaradas ao longo de duas horas e meia de grande cinema, onde a força da BD se mistura com a problemática realidade do terrorismo global, e que culmina num negro e poderoso final. Uma obra-prima.




Francisco Toscano Silva

sábado, 14 de junho de 2008

Esta Semana no Cinema...

O texto seguinte foi publicado no blog Deuxieme a 14 de Junho de 2008, com o título: «Estreias da Semana».

O ACONTECIMENTO

Esta semana traz consigo o regresso de dois pesos pesados – um deles é o de M. Night Shyamalan. Após as eternas discussões sobre a sua última obra (A Senhora da Água, que gerou ódios e amores na comunidade cinematográficas e dividiu o público), Shyamalan volta a roçar o tema do fantástico, mas com uma base de drama bem real no coração das paisagens emocionais dos EUA.

Perante uma série de acontecimentos sem explicação, que se sucedem pelos parques naturais de algumas cidades dos EUA, os humanos mergulham no estado de transe e cometem a sua própria morte, numa espécie de suicídio dormente. Entre os sobreviventes destes ataques, que se colocam em fuga à laia de um êxodo, encontram-se um professor de ciências e a sua complexa namorada (Mark Wahlberg e Zooey Deschanel), responsáveis pela filha de um amigo e completamente frágeis perante os acontecimentos naturais (ou não) que se vão sucedendo, enquanto fogem pela sua sobrevivência e tentam interpretar os sinais da crise para obterem uma resposta.

É um sentimento triste e desolado que Shyamalan faz descobrir neste filme, que apesar de não mostrar a sua cara (nem contar com a sua participação), reflecte bem o seu estado de alma. Shyamalan está - literalmente - chateado com os críticos e a “correcta” ou “suposta” maneira de fazer cinema. Um recente artigo publicado no LA Times revela claramente a visão do realizador face à sua obra, ao mundo dos públicos e dos filmes. No entanto, a questão relevante não se prende, enquanto espectador, com o sentimento que o criador alimenta, mas sim o facto de como ele elabora uma nova obra, um novo filme, e nessa perspectiva estamos perante um terrível fracasso.

Ainda que munido de uma boa ideia e algumas cenas bem pensadas e elaboradas (como a questão da tragédia dos miúdos que os acompanham ou até o suspense das mortes), Shyamalan não faz um filme, somente junta inúmeras cenas numa só fita e esquece os plots. O argumento perde credibilidade e força ao fim de meia hora (após um início bem conseguido) e chega mesmo a ser absolutamente ridículo e inverosímil na meia hora final, onde, de um momento para o outro, uma solução “deus ex machina” irrompe descaradamente no ecrã, à falta total de ideia e inspiração do realizador. O elenco é terrível, seja um Mark Wahlberg pateta, uma Zooey Deschanel insuportável e sem carisma, até um John Leguizamo apático e sem vida. Ou seja, Shyamalan fez um filme “para si mesmo”, onde juntou os elementos do paranormal e um suspense à Hitchcock e deu-lhe o início, meio e fim que quis sem se preocupar com mais nada, para demonstrar o que sente e o poder que tem. Pena ter-se esquecido do mais importante: o seu público, que esperava de si algo de qualidade superior, ainda que simpatizantes ou não d’ A Senhora da Água (uma discussão absurda e sobrevalorizada a meu ver), uma vez que considero Shyamalan um fabuloso contador de histórias e um óptimo retratista de emoções tão primitivas como actuais no mundo em que vivemos, para além de ser um autor de enorme visão artística.

Por tudo isso e em suma, é uma desilusão ver uma boa ideia ser transformada num protesto pueril e sem estrutura, muito longe de qualquer obra por si anteriormente concebida. Esperamos melhores dias para os desaires artísticos de Shyamalan, que percorrem neste momento dias de amargura.




O INCRÍVEL HULK

O outro regresso é o de Hulk, um dos triunfos maiores da Marvel, que renasce novamente no grande ecrã, desta vez por outras mãos e com um novo olhar. Louis Leterrier (Correio de Risco 2) toma a rédeas da realização e oferece entretenimento como ninguém, durante o tempo em que Bruce Banner (Edward Norton) se lança na procura de uma cura para as elevadas radiações que sofreu e o transformam irremediavelmente no irracional anti-herói verde. Ainda que com a ajuda de Betty Ross (Liv Tyler), Banner/Hulk tem contra si está o exército americano, comandado pelo General Thaddeus Ross (William Hurt) e uma famosa "abominação" (Tim Roth), que elevam o espectáculo de violência para novos caminhos, ao quererem prendê-lo para usar o teu gene na indústria bélica.

Em 2003, aquando da primeira incursão desta personagem no cinema, Ang Lee trouxe para o ecrã um filme fabuloso que detinha uma enorme riqueza, patente quer na questão do argumento (que roçava uma temática quase freudiana com bases de uma tragédia grega) como na sua componente visual (uma realização artisticamente intocável, recheada de inúmeros valores e linguagem da banda desenhada), mas apesar de tudo isso, o filme foi incompreendido e muito mal tratado. (recomendo a quem não apreciou uma nova hipótese de revisão urgente). Como tal, Hulk tornou-se um objecto a redesenhar no mapa cinematográfico, desta vez fora das mãos do cinema de autor, directamente para uma visão mais comercial.

Posto isto, a meu ver, os receios eram grandes. Mas é certo afirmar que, apesar do irrepreensível filme que Lee nos trouxe, esta continuação (que recupera de certa forma, num bom fair-play, a história passada) é uma simpática surpresa, onde a acção ganha mais pontos face a um argumento mais fraco, mas bem doseado de ritmo e força. Norton veste bem a pele do atormentado Banner (ainda que Bana assentasse melhor) e Tim Roth e William Hurt cumprem competentemente a sua missão. Menos se pode apreciar Liv Tyler, que não tem culpa da sua débil representação, na medida que a sua personagem também não o exige, (ao contrário de Jennifer Connelly, a Betty no episódio anterior da estória, uma peça chave com rosto e vida própria). De resto, a adaptação está bem conseguida (mais cingida à BD que o capítulo anterior, é certo) e o final reserva surpresas, seja pelo facto de Hulk alterar a sua postura face ao "mundo", um espaço que surpreendentemente lhe vai fazer um convite "de ferro", o que permite começar a conspirar um pouco sobre futuros filmes de super-heróis.




Francisco Toscano Silva

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Esta Semana no Cinema...

O texto seguinte foi publicado no blog Deuxieme a 21 de Maio de 2008, com o título: «Estreias da Semana».


INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL

Volvidos 19 anos desde a última aventura, Indiana Jones regressa ao grande ecrã, com todos os ingredientes necessários que sustentam, sem problemas, um filme renovador da saga que recorda de que material é feito um dos maiores heróis da sétima arte.

Tudo começa no improvável deserto do Nevada, em 1957, quando agentes do KGB, dirigidos por Irina Spalko (Cate Blanchett), tomam de assalto um armazém secreto de artefactos e segredos dos EUA, onde pensam estar guardada a lendária Caveira de Cristal de Akator, que esconde um poder paranormal que permite dominar a mente de toda a Humanidade; Jones (Harrison Ford) consegue escapar dos Russos, mas somente para encontrar problemas maiores, como uma pátria que dele desconfia e o investiga, um jovem impetuoso de nome Mutt Williams (Shia LaBeouf) que lhe traz informações importantes sobre o paradeiro da Caveira e da sua lenda e, ainda, o reencontro com um velho amor (Karen Allen) que esconde um factor familiar inesperado; tudo isto em viagem pela América do Sul, em fuga de uma temível URSS sedenta de poder e conhecimento extra… terrestre.

A grandiosidade de uma saga como a de Indiana Jones suscita inúmeros pontos de análise para esta obra, que residem em várias questões a reter. Primeiro, este é um regresso (esperado há anos) que comporta consigo um avanço na história da personagem (o palco da 2ª Guerra Mundial é trocado pela Guerra-Fria), bem como um avanço na visão da concepção do próprio cinema, munido agora de novas tecnologias, e como tal, este novo capítulo encerra em si novíssimos efeitos especiais e um espectáculo visual maior que qualquer filme anterior, ainda que, no entanto, tenha sido filmado numa “old fashioned way”, em alguns cenários materiais e onde Ford se mostra incansável (caramba, ele faz em Julho 66 anos!). Não falamos de superioridade em relação ao passado, mas sim a uma visão diferente e igualmente competente.

Um dos maiores pontos-chave da qualidade deste novo capítulo incide sobre o argumento, a cargo de David Koepp, que concilia a ficção da aventura com os fantasmas de um mundo bipolar (e de uma América às avessas interiormente); a “estória” base que emerge sobre a “história” real daquele período encaixa na perfeição, onde se alia uma questão arqueológica de enorme valor (a enigmática e vital Caveira de Cristal, que é o ponto de partida para Jones) com um interessante olhar sobre uma era de obsessão mundial pelo poder e conhecimento globais, onde não se olha a meios para determinar os fins (a Caveira sobre o prisma de ser “a arma mais poderosa de sempre”, ponto de partida para a URSS). Sobre estas perspectivas, O Reino da Caveira de Cristal encontra-se ao nível de qualquer outra aventura, ao fornecer o melhor que esta saga nos tem trazido: a luta pelo lugar da história (enquanto religião e factor determinante do conhecimento) no seu meio presente, por entre os caminhos fatais da tentação e corrupção que o comum dos mortais toma, ao querer dominá-la para seu benefício pessoal.

E, se olharmos para além da premissa narrativa, o que mais temos? Um herói em constante mutação, ao abrigo das mais inesperadas situações - Spielberg marca nesta realização um tom mais arrastado e pausado, que ao contrário de sugerir “desinspiração”, antes revela espaço para o natural envelhecimento do próprio Indy, presente na frase inicial "não será fácil como antes", e que é visível nas falhas dos golpes de chicote e alguns tropeções, que se apresentam, de uma forma graciosa, com mais humor no decorrer da acção, ao mesmo tempo que dão margem para que Indy mostre que a sua experiência e sapiência evoluíram decorridos os anos (é só verificar a calma e segurança com que ele lida com a KGB no assalto inicial ou com a descoberta da Caveira, na companhia de Mutt). Para além disto, é irónico olhar para Indy e ver nele as mesmas atitudes e expressões que o seu pai Henry (Sean Connery, presente na Grande Cruzada) tomava, e que ele prontamente criticava – afinal, Indy já é pai, o legado continua e por isso é necessário “educar” a mente de Mutt / Henry Jones III para o “mundo” (tal como já vimos na anteriormente referida Grande Cruzada, e que seria um excelente mote para uma próxima aventura).

Com uma demanda tão importante, a nova aventura de Indiana disponibiliza soberbos momentos de acção – sejam eles em Nevada ou nas florestas da Amazónia, em motas ou camiões, com pistolas ou espadas, em terra ou numa cascata – que nos fazem viver grandes momentos de adrenalina. Há espaço para tudo: formigas que devoram homens, caveiras com poderes sobrenaturais, templos repletos de artimanhas, estações nucleares que rebentam ou o contacto com a vida extra-terrestre (tão bem captada pelo medo global da época em questão, alimentada pelo pânico dos óvnis e da existência de outros seres sobrenaturais, hoje verdadeiros produtos da cultura popular). Toda a estória é perfeita e destaca-se das anteriores, uma vez mais, pela originalidade e pela força do seu próprio “mistério” presente no centro da narrativa, ponto fulcral patente na questão final quando Indy refere que "não quer ir por aí" face a uma descoberta excepcional, pois há coisas maiores que a vida e para lá do mero conhecimento empírico; “coisas” como a Arca da Aliança, as Pedras de Sankara ou o Santo Graal.

Apesar de tudo isto, é inevitável referir que este é o capítulo mais fraco de toda a saga – o que também não é difícil, tendo em conta que os 3 primeiros filmes são absolutamente notáveis e irrepreensíveis. Por fraco, eu entendo que não contém, por exemplo, o ritmo e suspense sufocante dos Salteadores, não mergulha numa escuridão tão mística e aterradora como a do Templo Perdido e, por fim, não recupera um reencontro familiar tão intenso como a Grande Cruzada proporciona. A juntar ao facto de Cate Blanchett estar pouco aproveitada (queríamos mais de uma actriz tão brilhante, sobretudo num registo tão único como este – é uma vilã magnífica), de os Russos não possuírem a força e malvadez que os Nazis mostraram deter noutras núpcias, bem como ainda é de notar alguma falta de carisma de Shia LaBeouf (que aguardamos que seja trabalhada nos próximos filmes), e existem ainda poucos momentos de Karen Allen; ambas as personagens necessitavam de uma presença ainda mais forte que a prestada. No entanto, o elenco funciona bastante bem, e a banda sonora de John Williams torna a recuperar os temas tão conhecidos, e dá elegância e força às cenas. São estes os únicos pontos que não permitem que se possa elevar a obra a valores máximos, pois de resto está lá tudo - absolutamente tudo - e com uma mente ainda mais aberta entre a fantasia e a realidade.

Bem vistas as coisas, este filme acaba, de certa forma, por condensar as fórmulas de todos os anteriores, e reinventa o mapa mundial e a própria personagem. O que é (foi) um risco, diga-se. Felizmente que Spielberg não perdeu mais tempo e tomou-o. O resultado é uma fabulosa viagem pelo género da aventura, onde encontramos todas as bases de um cinema americano clássico, que não desaponta e nos relembram que ninguém filma o mundo da acção e as paisagens da aventura como o genial Steven Spielberg. Cito e saúdo o Vasco Câmara, quando diz que "este chapéu só lhe serve a ele: Indiana Jones".

Ford (que na opinião de Roger Ebert - e na minha - tem um rosto como o de Robert Mitchum – não envelhece, só engrandece) revela ter voltado a vestir a pele desta personagem para recuperar "a arte de contar histórias" e "dar a conhecer em ecrã grande, que é onde se devem ver filmes, esta personagem a uma geração que só conhece Indiana Jones em DVD". Não posso concordar mais com esta afirmação, como em simultâneo duvido que pudesse estar muito mais contente com um filme como este.

Um óptimo regresso, que já fazia falta para meter na ordem todos os infiéis e medíocres copiões do género. Como este não há mais nenhum.

4 / 5

Francisco Toscano Silva

sábado, 3 de maio de 2008

Esta Semana no Cinema...

O texto seguinte foi publicado no blog Deuxieme a 3 de Maio de 2008, com o título: «Estreias da Semana».


HOMEM DE FERRO

Os destaques da semana começam pelo primeiro blockbuster de Verão (entenda-se que o "Verão cinematográfico" começa sempre antes da estação em si), que chegou esta quinta-feira às salas portuguesas, e refira-se, com pompa e circunstância. Homem de Ferro é o mais recente filme de Jon Favreau (realizador de Zathura — Aventura no Espaço e Elf — O Falso Duende), que junta um elenco muito forte onde Robert Downey Jr. e Gwyneth Paltrow se afirmam de uma forma extremamente graciosa. Partindo das origens deste famoso super-herói criado por Stan Lee (que possui um hilariante cameo confundido na pele de Hugh Hefner) nos anos 60, Homem de Ferro conta a história de Tony Stark (Robert Downey Jr.), um bilionário génio da invenção científica, que se afirma como um dos maiores expoentes da indústria bélica dos EUA. Após ser raptado por forças terroristas num país hostil, Stark vê-se obrigado a construir uma máquina de armamento e destruição para sobreviver, e ao ganhar contacto com uma realidade que desconhecia mas ajudou a criar, Stark vai inverter a missão da sua vida ao salvar todos do mal que semeou com a sua actividade.

O Homem de Ferro foi inicialmente criado sobre o prisma da realidade do Vietname, mas isso não causou entrave a Favreau, que readapta as coordenadas e vira-se para ao Médio Oriente, sobre um olhar irónico da reconversão da personagem de Stark (e que nos faz pensar uma vez mais sobre as actuais políticas de guerra e conflito mundiais). O resultado é um filme absolutamente bem conseguido, dotado de vários ingredientes que lhe dão uma frescura e beleza irreprensíveis. O argumento é soberbo e bem construído, servido com prestações fabulosas de todo o elenco, onde ainda se destacam Jeff Bridges num vilão de peso e Terrence Howard como parceiro e amigo do herói; mas é para Downey Jr. que os aplausos se acentuam em força - seja pelo facto de confirmar que é um dos actores maiores das últimas décadas, como também pela questão de mestria utilizada a vestir o papel desta complexa e interessante personagem, que apesar de famosa, nunca obteve junto do público uma atenção como o Homem-Aranha ou Super-Homem ou Batman obtiveram. É por isso brilhante ver como o carisma e o ar dandy e cool de Downey Jr. se misturam na perfeição com o de Tony Stark, tão bem equilibrado pela sua assistente Virginia "Pepper" Potts - a deliciosa Gwyneth Paltrow). De resto temos acção trepidante, uma excelente banda sonora, um ritmo narrativo que não conhece tempos mortos e uma aposta mais do que ganha sobretudo para a Marvel Studios, que se estreia, com este filme, no total financiamento de uma super-produção para a Sétima Arte. Estamos, de facto e em suma, perante cinema de ferro, onde falta muito pouco para se atribuírem valores máximos.

4/5


MY BLUEBERRY NIGHTS - O SABOR DO AMOR

A semana traz ainda outro doce, desta vez pelo olhar de Wong Kar-Wai. Chega-nos, finalmente, My Blueberry Nights (entre nós O Sabor do Amor), filme que marca a estreia de Norah Jones no cinema (uma subtil e fascinante estreia refira-se: parece que estamos perante o nascimento de uma estrela). Jones é a (inicialmente) desamparada Elizabeth, a personagem principal (e elo de ligação) que se vê a braços com um desgosto amoroso e encontra conforto em Jeremy (Jude Law), um dono de um simpático café com muitas estórias para contar. Iniciando uma viagem pela América mais profunda, Elizabeth vai, inevitavelmente, chocar com várias personagens (interpretadas por Rachel Weisz, David Strathairn e Natalie Portman) igualmente recheadas de questões e problemas de soluções subjectivas, onde os obstáculos do amor e da comunicação ganham terreno sobre a sobriedade do lado racional. Um caminho observado pelo lado mais humano dos seres, que vai orientar Elizabeth a construir o seu próprio rumo.

Wong Kar-Wai constrói aqui um filme difícil, seja pela temática como pelo efeito visual tão carregado, que se transforma praticamente no ar em que todos respiram, mas que se demonstra possuidor de uma beleza rara. Apesar de deixar alguns pontos soltos, Kar-Wai filma, de uma forma exemplar, uma viagem ao mais íntimo dos sentimentos, sejam eles movidos pela mais variadas forças exteriores / interiores, e presenteia-nos um grandioso objecto de cinema, onde Norah Jones e Jude Law se vestem num par improvável, mas espantosamente bem conseguido e carregado da maior vulnerabilidade possível, ainda que mascarada sobre a doçura do amor. É uma obra a não perder, que vive de um encruzamento de emoções bastante real e tão tangente a qualquer um de nós, suspenso num audacioso jogo de estética de luzes e cor, que ganha um lugar absolutamente mítico no interior de cada uma das personagens e de nós próprios, que nos perdemos por completo na magia deste cinema e desta visão. Ainda que sem a genialidade de Disponível para Amar (2000), My Blueberry Nights é, ainda assim, um triunfo; uma obra superior de enorme relevo e qualidade.

4/5

Francisco Toscano Silva

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Esta Semana no Cinema...

O texto seguinte foi publicado no blog Deuxieme a 24 de Abril de 2008, com o título: «Estreias da Semana».


BLADE RUNNER - PERIGO IMINENTE: VERSÃO FINAL

Completados 25 anos da sua estreia (comemorados em 2007), o intemporal e magistral Blade Runner volta ao grande ecrã, desta vez na sua versão definitiva; digamos que a versão que Ridley Scott imaginou na totalidade. Esta nova edição (que se encontra já a venda em DVD no mercado) contém cenas extra, diálogos adicionais, um tratamento de remasterização da imagem e do som, e leva-nos para num desencantado futuro dominado pela alta tecnologia, onde Deckard (Harrison Ford soberbo), um ex-blade runner (polícia), se vê novamente a braços com uma perseguição a 6 andróides replicantes assassinos em fuga, com a missão de os exterminar da terra. Num combate sem igual, Deckard perde-se na violência da ironia "tecnológica" criada pelo próprio homem, enquanto se apaixona por uma misteriosa replicante que lhe custará um elevado preço moral e humano.

Filmado sobre o registo do melhor noir com toques ciberpunk (tão presentes nos mais variados artefactos culturais da sociedade actual), Blade Runner mantém, volvidos todos estes anos, uma frescura, beleza, originalidade e sobriedade absolutamente intocáveis, que o tornam num imaculado objecto de culto da sétima arte, e que figura em grandiosos lugares de qualquer selecção cinematográfica que se efectue. São incontáveis os momentos que ficam para sempre gravados no nosso imaginário, para além da fabulosa mise-en-scene, da riquíssima linguagem simbólica dos corpos (humanos e não humanos) e dos espaços - exemplos muito copiados até aos dias de hoje, poucas vezes bem conseguidos, mas sobretudo nunca ultrapassados. Para finalizar tudo isto, é ainda de notar que esta versão é, sem dúvida, uma mais valia na medida que consagra todo o argumento para um final de enorme força dramática, e que encaixa vários dados que se encontravam à deriva pelo filme, nas versões alternativas que foram comercializadas antes - tudo bate certo, para um novo e maior ponto de vista e análise. A visão de Ridley Scott e a imaginação de Philip K. Dick ganham aqui uma proporção, literalmente falando, do outro mundo, e a possibilidade de se visionar numa sala de cinema é, sem outra possível definição, um momento de pura magia irrepetível para qualquer cinéfilo que se preze. Absolutamente obrigatório, para ver e rever, vezes sem conta.

5/5


TUDO O QUE PERDEMOS

Após a ressaca dos Óscares e antes da avalanche dos blockbusters de Verão, existe ainda lugar para exemplos do melhor que o género dramático nos pode presentear. Neste tempo intermitente, é de louvar a realizadora dinamarquesa Susanne Bier, que nos traz uma arrojada e poderosa obra sobre a redenção e as formas frágeis onde o amor nasce. Sob a produção de Sam Mendes, Tudo o que Perdemos é um belíssimo drama que nos coloca no seio de uma família, composta por Audrey Burke e as suas filhas, inesperadamente atingidas pela morte de Brian, o marido/pai (singular David Duchovny). Perante uma nova realidade de contornos quase sufocantes, Audrey traça laços de amizade com Jerry Sunborne, um toxicodepente perdido, que era o melhor amigo de Brian desde a sua infância, e de quem Audrey nunca gostou. Num processo de "auto-salvação", Audrey lança-se para ajudar Jerry (ao pedir que se mude para viver na sua recuperada garagem), enquanto tenta sobreviver à tona, com as suas filhas, no enorme pesadelo da perda - sem imaginar que Jerry lhe irá mostrar, da forma mais difícil, o longo caminho da aceitação e redenção pessoais.

Numa narrativa linear (somente alimentada na primeira parte por flashbacks), ao longo de duas horas, tomamos parte do turbilhão de emoções que habitam nestes personagens, confusos entre sentimentos mas certos da sua orientação, que nos fazem viver momentos de grande cinema, onde Berry e Del Toro são brilhantes na representação dos espaços frágeis que habitam sobre o amor e a revolta, sempre bem suportados pelo grandioso trabalho de câmara de Bier, que nos remete para Bergman com os seus grandes planos, uma vez mais reveladores de que os rostos são uma matéria de enorme valor fílmico e humano. Juntamente com O Lado Selvagem e No Vale de Elah, este é um dos mais poderosos dramas que este ano nos trouxe até agora.

5/5


VESTIDA PARA CASAR

Esta semana temos também espaço para uma comédia romântica muito simpática. Vestida para Casar conta a história de Jane Nichols (Katherine Heigl, a fascinante Izzie de Anatomia de Grey), uma jovem que dedica grande parte da sua vida a olhar pelos outros e a marcar presença num momento importante das suas vidas, como o casamento; daí ela guardar religiosamente 27 vestidos de dama de honor, apesar de sonhar com o dia em que ocupe o lugar da noiva, para viver uma bela história de amor. Perante estes "actos beneméritos" com os seus mais chegados, Kevin Doyle (James Marsden), um jornalista descarado, descobre assim os ingredientes ideais para escrever uma bela estória, e aventura-se no caminho de Jane, que se encontra já marcado pela confusão que a sua irmã Tess (Malin Akerman) criou, ao roubar-lhe, inadvertidamente, o homem dos seus sonhos - o seu patrão (Edward Burns).

Com confiança e determinação, Anne Fletcher realiza um filme extremamente divertido, dotado de diálogos originais e carregados de bom humor, com uma mensagem bonita e que resulta num objecto de entretenimento inteligente. Para fixar fica a óptima prestação de Katherine Heigl (que desvenda, a par de Julia Roberts e Meg Ryan, uma sólida figura para registos futuros deste tipo) e alguns momentos bem concebidos, como o improvável, mas delicioso "Bennie and the Jets".

3/5


UNS ESPARTANOS DO PIOR

Se este ano já abarca consigo alguns títulos de medíocre e/ou duvidosa qualidade, eis que nos chega, até ao momento, o pior filme do ano. É doloroso classificar "isto" como "filme", pois não existe um pingo de cinema aqui dentro. Sobre a alçada das sagas Scary Movie e do recente Epic Movie, Uns Espartanos do Pior volta a combinar o cinema (dos últimos dois anos) e mistura-o com os podres da socialite americana. O resultado é um absoluto desastre, onde a simples paródia a títulos como 300, Uns Compadres do Pior, Rocky Balboa e Transformers não funciona nem sequer por 30 segundos.

Apesar disso, o pior concentra-se na seguinte questão: como se elabora um projecto destes numa filosofia de "tudo é possível e válido", até as mais importantes e basilares regras da sétima arte ficam por respeitar: ritmo narrativo é nulo, interpretações não existem, o argumento roça o mais ordinário e pueril dos tempos actuais, e não existe também qualquer noção de raccord (a cena da nudez cortada em três planos revela descaradamente um fato de banho, já para não falar nos microfones presentes em inúmeras cenas e de se ver, no poço da morte, o espaço onde as vítimas "caem", ao nível do solo), e note-se ainda um facto extraordinário que é a necessidade constante de cada momento de paródia a algo ser devidamente identificado pelos actores (?), que indicam à força quem é a personagem, nessa altura. Sim, porque diga-se que ao verificar a silhueta dum boxeur com a cara de Stallone, semi-nu de calções, (onde até se encontra inscrito o nome do personagem) e de luvas postas, o espectador precisa ainda assim que a acção (?) seja suspensa para que os actores (?) soltem, num espanto mais farçola que os grunhidos dum filme pornográfico, um surpreendente "Rocky!". Um verdadeiro e atroz atestado de estupidez, até ao público menos exigente.

1/5 (só porque não usamos "bola preta".)

Francisco Toscano Silva

quinta-feira, 27 de março de 2008

Esta semana no cinema...

O texto seguinte foi publicado no blog Deuxieme a 27 de Março de 2008, com o título: «Estreias da Semana».


NÃO ESTOU AÍ

O cinema é, como todas as artes, uma criação de risco. Por “risco” devo sublinhar todo o arrojo necessário que uma obra deve (ou devia) possuir para se elevar ou, no caso contrário, a falta do mesmo arrojo, que a condena a algo mediano ou mesmo medíocre. Estreia hoje, entre nós, um notável objecto cinematográfico, que nasce do desafio de um enorme risco artístico / pessoal / cultural. Não Estou Aí (I’m Not There no seu original) é o novíssimo filme de Todd Haynes, realizador de obras como Velvet Goldmine (fantástica incursão no mundo da perda de inocência, suspensa sobre o boom da cultura “glam-rock” dos anos 70) e Longe do Paraíso (uma revisitação surpreendente ao classicismo americano dos anos 50), e que se centra num dos maiores ícones da música e da América: o incontornável Bob Dylan.

Se o risco criativo da obra se apresenta já pela enorme complexidade da personagem e do seu peso e herança culturais, afirma-se de antemão que esta é a menor das questões. Haynes vai mais longe e dirige seis actores (Marcus Carl Franklin, Christian Bale, o recentemente falecido Heath Ledger, Cate Blanchett, Richard Gere e Ben Whishaw) no papel de Dylan, cada um representativo das múltiplas facetas deste lendário cantor e compositor, sejam elas de domínio público, privado e/ou fantasiado. Num espantoso mise en scène, Haynes desdobra Dylan no retrato único, onde realidade e fantasia se entrecruzam de forma brilhante, e confere-lhe um cunho biográfico alimentado tanto pela vida real de Dylan como pela sua imagem e histórias a si subjacentes, onde o mito popular e a iconografia se misturam com a veracidade de um homem de capacidades e maneiras tão exuberantes quanto extraordinárias.

Bob Dylan, poeta de intervenção que marcou gerações desde o início dos anos 60 até a actualidade, surge-nos através dos seus amigos (Joan Baez – famosa cantora - discretamente interpretada por Julianne Moore), dos seus fãs (equilibrados entre os que o contestam e os que o veneram), das mulheres da sua vida (onde Charlotte Gainsbourg brilha na pela de Claire) e sobretudo, pelo olhar de um país em plena (e constante) transformação: a América do Vietname, pós Geração Beat, adepta dos Blues, Jazz, do Rock e do Folk (onde Dylan se notabilizou primeiramente), onde o descrédito do poder político se aliava a problemas sociais como o racismo, a droga e a guerra.

Com um enorme poder e sensibilidade artística, Haynes leva-nos para uma viagem inesquecível às mais variadas facetas de um homem único, que travou lutas com a sua própria criação intelectual e o seu compromisso pessoal nas relações humanas que estabeleceu, minadas por um desejo de reclusão constante, de receios e de incompreensão. Oscilando entre um preto e branco magistral e uma cor tão resplandecente como a sua música, Haynes desdobra Dylan em seis corpos diferentes, numa realização estupenda possuidora de uma energia inventiva mas bem contida e devidamente medida para cada cena, em oposição ao formato videoclip que a sua anterior incursão musical (o já citado Velvet Goldmine, que este ano comemora já o seu décimo aniversário) adoptara.

Para além da visão de Haynes, a escolha deste improvável (mas grandioso) elenco é uma peça chave neste enorme labirinto humano, onde para além do destaque das prestações soberbas de Christian Bale (que simboliza Dylan no início da carreira e o mundo do folk, e mais tarde o “abraçar” a causa religiosa) e Heath Ledger (o seu lugar no cinema e a questão familiar centrada na sua mulher e filhas), existe uma “personagem” que vive por si só: Cate Blanchett revisita Dylan em ruptura com o folk e a guitarra acústica, ao aderir à sonoridade eléctrica e ao folk rock, enquanto é confrontado pelos seus fãs que se sentem traídos e ainda pela imprensa e as suas histórias. Blanchett reúne nesta interpretação algo de majestoso, de inigualável, de contornos formidáveis, que não se prendem somente com a questão de representar o sexo oposto, mas a juntar a isso se incluir um “acting” tão vivo e real do papel “do momento” em que ele vive, que faz desta sua interpretação, possivelmente, a melhor da sua carreira.

Contra todos os possíveis factores de criação versus realidade, a vida de Dylan está aqui, bem equilibrada entre verdades absolutas e um hipnótico mundo onírico. Importa ainda relembrar que, neste jogo de máscaras, a juntar a estes seis corpos, Haynes termina o filme com uma imagem do sétimo: o próprio Bob Dylan, que na verdade se chama Robert Allen Zimmerman. Pelos vistos, afinal, os disfarces começaram muito antes do filme, que é absolutamente obrigatório.

5 / 5


Outras Estreias:


NEVOEIRO MISTERIOSO

Frank Darabont (À Espera de Um Milagre) mergulha no cinema de terror, com um fabuloso filme impróprio para cardíacos, que conta a história de David Drayton (Thomas Jane) e o seu pequeno filho que se encontram, entre o largo grupo de habitantes da mesma vila (destaque para a brilhante Marcia Gay Harden), fechados na mercearia local cercada por uma neblina estranha, que esconde uma ameaça terrível. Contra todos os esforços, as resistências acabam por ceder – quer a nível “mutante” como humano, e a luta pela sobrevivência torna-se ainda mais difícil. Cruzando influências de filmes série B, com a lição de John Carpenter bem estudada, e fortemente apoiado no romance de Stephen King em que o argumento se baseia, Darabont fornece-nos duas horas de grande cinema, onde a condição humana e os fantasmas da América se debatem com estranhas criaturas mortíferas que tomam de assalto, sem razão aparente, o mais comum dos mortais. Hitchcock ficaria orgulhoso.

4 / 5


NUNCA É TARDE DEMAIS

Edward Cole (Jack Nicholson) é um executivo milionário que se cruza com Carter Chambers (Morgan Freeman), um mecânico de classe baixa, numa improvável slada de hospital. Unidos pelo fatal destino de uma doença terminal, decidem juntos passar o que lhes resta da vida a concretizar tudo aquilo que sempre desejaram mas não conseguiram. Nesta viagem de combate à tristeza, a realidade dos problemas pessoais de cada um cruza-se com própria celebração da vida e da aceitação do que cada pessoa é por si mesma. Num registo muito simpático, Nicholson e Freeman fazem uma dupla inteligente e apelativa, mas apesar da bondade da mensagem, a força do drama não consegue imperar sobre a moral já explorada e evidente com que o filme se alimenta, para além de sobreviver com uma realização mediana, desprovida de registos de interpretação que deixem marca, algo que dois gigantes como Nicholson e Freeman o sabem fazer sem qualquer tipo de esforço. Ainda assim é um objecto bem articulado, que cumpre aquilo que promete, de forma muito eficaz.

3 / 5


ENTREVISTA

O auto-destrutivo jornalista Pierre Peders (Steve Buscemi), experiente em política e situações de guerra, vê-se a braços com uma despromoção no seu serviço, que o leva, contra a sua vontade, a entrevistar a famosa estrela de séries de televisão Katya (Sienna Miller), e sob um aparente desinteresse entre ambos, estabelece-se uma curiosa relação de cumplicidade que se revela demasiadamente pessoal e… fatal. Baseado no filme de 2003 com o mesmo título, realizado por Theo Van Gogh - um jornalista assassinado em 2004 por um fundamentalista furioso com o visão do Islão que o cineasta mostrou num dos seus filmes – Buscemi, amigo e admirador de Van Gogh, revitaliza a obra anterior, com o mesmo argumento, e fornece-nos um verdadeiro tour de force, contado em 90 minutos e tendo como base o apartamento da actriz, onde cinema e teatro se encontram de forma graciosa, seja pela técnica artística ou pelo fantástico uso de máscaras entre os personagens. Um grande filme a ver, onde Sienna Miller revela porque é uma das grandes actrizes da actualidade.

4 / 5

Francisco Toscano Silva

quinta-feira, 20 de março de 2008

Esta semana no cinema...

O texto seguinte foi publicado no blog Deuxieme a 20 de Março de 2008, com o título: «Estreias da Semana».


O AMOR EM TEMPOS DE CÓLERA

Florentino Ariza (Javier Bardem) é um jovem poeta ingénuo que trabalha nos correios, que se apaixona perdidamente por Fermina Daza (Giovanna Mezzogiono), que lhe corresponde. O romance não é bem visto aos olhos do rico e poderoso Lorenzo Daza (John Leguizamo), pai de Fermina, que assim envia a sua filha para junto da prima, longe de tudo e todos durante uns anos. Florentino aguarda, virgem, a chegada do seu amor, mas quando Fermina regressa encara-o com desprezo, recebendo antes o cortejo de Juvenal Urbino (Benjamin Bratt), um médico famoso com quem se irá casar. De coração ferido, Florentino vinga-se na carne de outras mulheres, enquanto espera que Juvenal morra para reconquistar Fermina, que é o amor da sua vida.

Partindo da premissa da aclamada obra do escritor Gabriel García Márquez, o realizador Mike Newell (Donnie Brasco, Harry Potter e o Cálice de Fogo) filma uma belíssima história de amor sob um olhar absolutamente vazio, sem ideias de cinema, preso a um argumento paupérrimo, que faz de um elenco tão prestável um verdadeiro bando de zombies sem alma nem sangue. É uma tragédia ver uma obra literária, tão importante e relevante como esta, ser reduzida a um telefilme com más prestações, grandes cenários meramente figurativos e sem força nem papel na história, captados por uma realização banalíssima, que não desperta qualquer estímulo no mais comum dos espectadores, ao longo das mais longas duas horas e vinte de sempre. A cultura latino-americana é mostrada sobre os mais batidos “clichés” sociológicos, os cheiros e cores das paisagens são uma realidade distante ou quase nula, as cenas de amor e sexo são tão profundas como as da saga Emanuelle, os actores são monólitos de inexpressividade, dirigidos sobre um completo descuido e num tom de farsa terrivelmente penoso de se ver (de salientar ainda que a caracterização das personagens no seu estado idoso é incrivelmente mal conseguida, a qualquer minuto se teme que sobrancelhas ou narizes ou peitos caiam sem piedade para desmascarar o óbvio). Contra todas as expectativas, seja pelo poder da obra de García Márquez ou até pela competência de Newell já verificada em trabalhos anteriores, O Amor em Tempos de Cólera é, desde já, um dos piores filmes que estreou entre nós (a juntar-se às Duas Irmãs Bolena e ao indescrítivel 10,000 AC). E que pena que assim é.

1 / 5


AUGUST RUSH – O SOM DO CORAÇÃO

Evan Taylor / August Rush (Freddie Highmore, que podemos ver actualmente em As Crónicas de Spiderwick) é um menino orfão especial, com um enorme talento para a música. Reduzido ao orfanato e sem amigos, Evan nunca desistiu da ideia de um dia encontrar os seus verdadeiros pais, que não conhece mas imagina nos seus sonhos. Com receio de ser entregue a uma família adoptiva, Evan parte em busca dos seus entes queridos, e depara-se com um mundo que desconhece, que o levará contra um vagabundo oportunista do seu dom (Robin Williams), e o irá fazer enfrentar os seus medos interiores, na luta para encontrar a sua mãe (Keri Russel) e o seu pai (Jonathan Rhys Meyers), curiosamente dois excepcionais músicos que seguiram forçosamente vidas separadas. A música revela-se, por isso, a chave para o seu encontro.

Kristen Sheridan (filha de Jim Sheridan, que escreveu o argumento de Na América) é a realizadora deste interessante filme, recheado de boas intenções, mas que infelizmente se revela fraco, e por vezes lamechas, no passar da sua bonita mensagem. O seu argumento pobre é a principal causa para o desnorte do filme, que contém a acção bem delineada, mas que se apoia em pressupostos e personagens de linhas demasiado maniqueístas (onde Robin Williams surge num registo secundário absolutamente deplorável, quer pela sua interpretação quer pelo conteúdo da personagem, que nos remete para um “cliché” género Oliver Twist) e que deturpam, no seu plot final, uma visão mais humana (com que o filme até arranca de forma interessante) que a acção tomara no seu início, e que se pedia, sobretudo, no fim. Por isso, temos um eterno lugar comum, misto de contos de fadas, de meninos perdidos, mundos muito estilizados, e um inevitável e descarado “happy end”, misturados à deriva de bons costumes e valores familiares nem sempre fiéis à realidade que os circunda. No entanto, tudo isto não invalida o eficaz trabalho de Sheridan no cuidado da narração e evolução das personagens (boa coordenação de flashbacks com acção presente), bem assentes graças também ao bom trabalho de Freddie Highmore, de Keri Russell (mãe que se refaz com pequenos pedaços do filho), e ainda, de Jonathan Rhys Meyers, num registo diferente mas igualmente competente e caloroso.

2 / 5


HORTON E O MUNDO DOS QUEM

Horton é um elefante divertido, dotado de uma enorme imaginação, que habita numa selva muito peculiar. Um dia, Horton ouve, inadvertidamente, um curioso pedido de ajuda, vindo de um grãozinho de pó que flutua pelo ar que é, na verdade, um planeta minúsculo, onde existe uma cidade chamada “Quem Vila”, onde habitam seres microscópicos que ninguém consegue ver. Os "Quem", seus habitantes, pedem a Horton, dotado de uma excelente audição, que os proteja no seu mundo exterior, mas a incompreensão dos outros animais da selva irá causar-lhe um enorme caso de trabalhos.

Baseado nas personagens de Theodor Seuss Geisel (Dr. Seuss), Horton e o Mundo dos Quem é uma deliciosa história, realizada por Jimmy Hayhard e Steve Martino, que se debruça sobre o poder do mais perfeito processo de animação (trazido até nós, neste caso concreto, pelos Estúdios Blue Sky), onde se esconde uma fabulosa e encantadora história de variados contornos sociais da actualidade, bem explorada numa vertente que atinge os públicos mais novos, como também os mais velhos, de igual forma. Num divertido registo, Jim Carrey transporta para Horton os seus mais diversos tiques e manias de representação, e sobretudo, em paralelo com a dimensão física do herói surgem feitos e emergem necessidades de enorme importância humana, ainda que devidamente mascaradas sobre o comum receio pueril e confronto racional, inerentes a todos os seres. Num interessante triângulo de acções, onde Horton colabora com o presidente da Vila dos Quem (o sempre excelente Steve Carell) e enfrenta a Canguru dominadora da selva (Carol Burnett), é-nos fornecida uma luminosa comédia, onde os cenários e os seus efeitos apaixonam os espectadores, bem como os personagens secundários e os seus gags (o grupo de macacos Wickersham munidos de bananas e o abutre Vlad Vladikoff – com a voz de Will Arnette – são claros exemplos), para além ainda do inventivo e mágico argumento, que se apresenta de forma linear e simples, mas bem carregado de uma mensagem nada vulgar, onde o "tamanho" das coisas ganha um papel fundamental. Mais um triunfo do mundo da animação para todos os públicos sem excepção. Na versão portuguesa temos as vozes de João Baião, Vítor Norte, Inês Castel-Branco e Cláudia Cádima.

4 / 5


OS FRAGMENTOS DE TRACEY

Tracey Berkowitz (Ellen Page), é uma adolescente de 15 anos, que se apresenta nua sob uma velha cortina de banho na parte de trás de um autocarro, enquanto procura desesperadamente o seu irmão mais novo, Sonny (Zie Souwand). Numa interminável viagem, Tracey mergulha no seu mundo estilhaçado, onde em pequenos fragmentos se descobre uma família disfuncional, um mundo de fantasias com o seu namorado Billy Zero (Slim Twig) e uma fragilidade humana de enorme escala, onde a verdade e a criação irreal do desejo andam de mãos dadas.

Que Ellen Page é uma actriz absolutamente notável já ninguém tinha dúvidas (é só ver ou rever Hard Candy e/ou Juno, ainda em exibição entre nós), mas ainda assim cada projecto seu comporta uma curiosa questão inicial: que registo esta jovem actriz nos vai presentear? Os Fragmentos de Tracey é, entre várias coisas, uma surpresa; é uma surpresa enquanto objecto cinematográfico, e uma vez mais enquanto representação “solo” de Ellen Page. Sob um formato “fragmentado”, Bruce McDonald (realizador oriundo da TV) conduz-nos num mundo desencantado, onde o ecrã nos surge fragmentado noutros diversos ecrãs, onde a mesma acção ou acções paralelas decorrem, e que nos presenteiam, numa brilhante narrativa não linear, um retrato cruel da viagem de uma jovem, que se vê a braços com a culpa de ter “perdido” o seu irmão pequeno. No seio desta incessante procura encontram-se necessidades de resolução para a sua família disfuncional, para a marginalização da parte dos seus colegas da escola, e para o despertar sexual e onírico que o seu namorado (que encarna os cânones clássicos do “Rock n’ Roll way of life”) lhe provoca; mundos fragmentados que habitam na sua vida desequilibrada. Perante este argumento de tom clássico e de cunho visual arrebatador, esta é uma obra fascinante e de originalidade evidente, que nos mostra novos caminhos do cinema digital e inovadoras vertentes de fazer cinema.

4 / 5

Francisco Toscano Silva