domingo, 16 de novembro de 2008

Quantum of Solace

Desenganem-se todos os que se acham estar perante mais um Jason Bourne ou qualquer outro super agente secreto do século XXI. James Bond é Daniel Craig e nunca uma outra pele lhe assentou tão bem. Acabaram-se os vilões megalómanos, sustentados por uma ambição impossível ou pelo mais requintado plano de dominação mundial. Os gadjets high-tech ficaram na gaveta e as miúdas do herói não são nada ocas de pensamentos ou vazias de personalidade. Brosnan deixou, não por culpa dele, a imagem de Bond em queda livre para o campo da fantasia, onde o famoso herói só poderia morrer noutro dia. Esse dia chegou em boa hora com Casino Royale (2006). Martin Campbell arrumou de vez com o de fogo-de-artifício ultimamente associado à imagem do famoso agente secreto e devolveu-lhe parte da mortalidade e carácter que se julgavam esquecidos nos romances. Fleming deve sorrir de contentamento, pois este Bond que agora surge novamente em Quantum of Solace é a adaptação mais fiel da personagem ao grande ecrã.

Bruto, duro, implacável e vingativo, é assim que Marc Forster nos apresenta James Bond no 22º filme da saga mas que, apesar deste facto, poderia muito bem ser o segundo. O realizador de Monster’s Ball – Depois do Ódio, Contado Ninguém Acredita e À Procura da Terra do Nunca, pegou na introdução à personagem feita em Casino Royale e, pela primeira vez na história do herói britânico, deu-lhe uma continuidade explicitamente evolutiva de um filme para o outro, não só no que toca ao tema deixado em aberto, mas também no que diz respeito à persona em conflito. As feridas demasiado profundas que Vesper (Eva Green) deixou marcaram o herói - lembremos “The job's done and the bitch is dead” – e, apesar de uma aparente busca de vingança, Bond procura na realidade uma paz interior, um estado de espírito mais descontraído e relaxado, o estado de Quantum of Solace. No romance, a teoria que Fleming pôs da boca do governador de Nassau não está explicitamente visível, mas é sempre traduzida nas cenas mais pausadas, quer por imagens, quer em diálogos chave.

É no argumento que também se sente alguma continuidade. Neal Purvis (Morre Noutro Dia, Casino Royale), Robert Wade (Morre Noutro Dia, Casino Royale) e Paul Haggis (Casino Royale, No Vale de Elah) juntaram-se novamente e do romance do escritor inglês adaptaram Quantum como sendo a organização encabeçada por Dominic Greene, o vilão interpretado por Mathieu Almalric (O Escafandro e a Borboleta). Quantum é uma entidade criminal infiltrada em todos os ramos económicos e sociais que bem faz lembrar a SPECTRE dos filmes de Connery e Moore (tal como M diz em Casino Royale, digo também: “I miss the Cold War”). Apesar da falta de charme, postura ou ambição maquiavélica que o vilão possa apresentar, Dominic Greene é um dos vilões contemporâneos mais humanizados (a frieza e a arrogância sobressaem e de que maneira!) desde que Brosnan aceitou o desafio de dar cara e corpo à personagem.

Se Bond vive, desde Casino Royale, em permanente conflito interno de sentimentos, então Dominic Greene é o arqui-inimigo perfeito para complementar o herói: não só trabalha a um nível emocional como é um vilão que suja as mãos, que não se limita a comandar de um posto mais elevado. A acompanhá-lo está Olga Kurylenko (Camille), uma mulher destroçada por um trauma de infância que procura uma sangrenta vingança pessoal e irá concretizá-la com ou sem a ajuda de Bond.

Apesar de Eva Green ter deixado o lugar de Bond girl disponível, deixou também uma impossível mas desafiante missão à próxima actriz a ocupar a sua posição. O legado de Martin Campbell era pesado e a solução da equipa de argumentistas (da qual Craig também fez parte mas não foi creditado) passou não por mostrar uma Bond girl em busca de aventuras nocturnas, mas uma tão traumatizada quanto Bond, apesar de estarem a níveis diferentes: ela a nível físico, ele a nível emocional. Por estar assim destroçado, Bond não entra em jogos de sedução muito elaborados com a agente Fields (Gemma Arterton) e na suite do hotel vai directamente ao assunto.

As consequentes cenas entre lençóis são completamente frias de emoção ou mesmo anti-românticas, no entanto, a introdução de mais uma personagem no enredo, apesar de secundária, é fundamental para a caracterização do estado psicológico do agente secreto. Tal como a agente Fields, as restantes personagens têm um papel fundamental. As caras conhecidas de Casino Royale estão de regresso mas de maneira mais dúbia e subtil: Felix Leiter (Jeffrey Wright), da CIA, tem de seguir ordens superiores, mesmo que essas vão contra aquilo que Bond pretende; Mathis (Giancarlo Giannini), sempre com classe, regressa para auxiliar Bond, após ter sido detido injustamente no final de Casino Royale; M (Judi Dench) é a chefe severa, austera e intransigente, no entanto desempenha o papel da figura materna que Bond nunca teve; e claro, para acabar, Mr. White (Jesper Christensen) a cara, até agora, mais importante da organização criminal.

Todas as personagens movem-se num pano de fundo actual e contemporâneo que dá forma ao enredo: a escassez do petróleo, o valor da água e a associação de governos a entidades criminosas são os principais focos de interesse.

Uma explosão de som num túnel em Itália remete-nos para a primeira perseguição do filme, sufocante e alucinante. Quando acaba vemos sair Daniel Craig, de olhar cansado (há quantos dias não dorme?) mas de missão cumprida. No porta-bagagem está Mr. White. Se até este ponto pensámos estar perante o James Bond numa vertente mais clássica, desenganem-se mais uma vez. Estão ausentes as cenas clássicas no casino, as engenhocas do Q (à excepção de Casino Royale, nunca antes tínhamos visto um Bond tão físico), a solteirona Miss Moneypenny, os temas de John Barry passam despercebidos (mas estão lá!) e quando Bond bebe não é de maneira suave, é para se embebedar.

O “novo” James Bond tortura adversários e mata-os sem piedade nem misericórdia e tem humor, apesar de não ser apagado pela violência extremamente visceral que o Craig impõe nas cenas. O seu olhar azul não podia ser mais frio do que alguma vez Fleming imaginou. Por ser assim, o argumento é conduzido por um caminho inteligente no que diz respeito à gestão pessoal da personagem. A morte de Mathis é uma metáfora para a quebra da única coisa que ainda o ligava a Vesper (ouve-se o seu tema) e se no início de Casino Royale Bond ganhou o duplo zero – ordem para matar – Daniel Craig leva a personagem, ao contrário de Kurylenko, a não seguir por essa via para conseguir vingança.

Só no final azedo e amargurado de Quantum of Solace temos realmente o James Bond que conhecemos primeiramente em Dr. No (1962). No entanto, Marc Forster não descurou os pequenos pormenores. Há piscadelas de olho aos fãs dos anteriores filmes: perseguições de barco, saltos de avião e uma homenagem explícita a Goldfinger (1964). Mais curto que o anterior, a duração do filme não se torna um problema e é mostrado tudo o que importa.

O realizador aprendeu bem as lições de Martin Campbell, conseguindo assim dosear de forma eficaz os momentos mais pausados e contemplativos e as frenéticas sequências de acção: a corrida pelos subterrâneos de Siena enquanto decorre uma corrida de cavalos à superfície e a fuga/perseguição durante a encenação da Tosca (Puccini) são das sequências mais belas do filme, numa montagem irrepreensível. O facilitismo de se comparar Bond a Bourne apenas pode ser justificado pelas corridas de Craig nos telhados de Siena. Também poderíamos ir buscar outros filmes para comparação, como por exemplo, Miami Vice (Michael Mann).


Quantum of Solace não é um filme tão forte como Casino Royale. Tenta dar continuidade ao seu sucesso (é o mais curto de todos os filmes da saga) e, muito resumidamente, é um filme sobre a vingança. Tal como Kurylenko diz no filme, “There's something horribly efficient about you."




Pedro Xavier

6 comentários:

Fernando Ribeiro disse...

Antes e mais, devo dar os meus mais sinceros parabéns relativamente a esta crítica. Completa, bastante directa e com uma excelente interpretação do universo deste James Bond do séc. XXI.

Apesar de não ter gostado tanto deste filme como 'Casino Royale', este está uma vez mais carregado de um excelente entretenimento. O filme de Campbell conseguiu uma narrativa muito mais eficaz, mas este consegue também continuar este lado sentimental e ao mesmo tempo de grande dureza, por parte de James Bond.

De 0 a 10 dou-lhe um 7. Mais uma vez os meus parabéns!

Cumprimentos.

Arte Revisitada disse...

Obrigado Fernando pelas palavras de incentivo.

Vi o passatempo da crítica ao QoS no seu blog e só não participei por só ter terminado este post depois de ter visto que uma crítica já tinha sido a vencedora.

Não sei se ainda vou a tempo... lol

Mesmo assim, obrigado.

1 abraço
P.X.

Fernando Ribeiro disse...

Só um pequeno reparo: a crítica que está no blog não é a vencedora. Apenas foi seleccionada para publicação. Neste momento já foram publicadas duas, mas mais ainda vão ficar online. Portanto, ainda estão a tempo. O grande vencedor só será apurado no final de todos os seleccionados.

Obrigado pela visita e pelo interesse! :)

Abraço

C. disse...

Modernizar não tem de significar o desprezar do passado. Gostei destes últimos 2 filmes como filmes de acção, mas para mim o imaginário James Bond continua a estar nesses vilões megalómanos, nas engenhocas do Q e no martini. Por mais limitados ou antiquados que nos pareçam agora.

Arte Revisitada disse...

Wasted Blues,

Em primeiro primeiro lugar, deixa-me agradecer a tua visita e o teu comentário.

Eu sou uma pessoa suspeita no que toca às aventuras de 007, uma vez que "cresci" a ver as suas aventuras ainda no velhinho formato VHS (tenho todos os filmes). As minhas opiniões sobre os filmes do agente secreto seguem sempre uma via tendenciosa e pouco objectiva.

Gosto muito dos filmes do passado, em especial aqueles em que entra Sean Connery. Gosto muito das cenas no casino, dos jantares de charme, da procura de dispositivos escondidos no quarto de hotel, das engenhocas do Q (o carro de Goldfinger é um must), da conversa de sempre entre Bond e Moneypenny, do gabinete de M, da Guerra Fria, de James Bond tirar o fato de mergulho e ter um smoking por baixo...

Desde que descobri os romances de Fleming descobri um James Bond, acima de tudo, mortal, com vícios e dramas pessoais e é isso que tenho de louvar aos 2 mais recentes filmes.

No entanto, é verdade, também sinto falta de tudo o resto...

P.X.

C. disse...

Com livros ou sem livros, o imaginário acabou por ser criado no Cinema, durante 40 anos ;) Mas confesso que quando falo de imaginário, também falo dos primeiros filmes com Sean Connery, em especial o Goldfinger.