quinta-feira, 12 de junho de 2008

Bee Movie - A História de uma Abelha (DVD)

Pode-se caracterizar a comédia de Jerry Seinfeld como sendo um género de humor a nível microscópico, sobre as pequenas coisas que notamos no dia-a-dia, num estado de semi-consciência mas que, só eventualmente, lhes damos importância. O grande talento do comediante é saber captar a nossa atenção para essas “pequenas” coisas. Por esta lógica, é apropriado que o seu primeiro grande projecto desde o final da série televisiva “Seinfeld” (já lá vão 10 anos!) seja sobre uma pequena criatura voadora que alegremente desafia as convenções físicas escritas pelos humanos e as leis que regem a colmeia onde vive (Seinfeld sempre se sentiu fascinado pela existência quase impossível das abelhas).


Para complementar um guião com assinatura do próprio Seinfeld (e ainda Spike Feresten, Barry Marder e Andy Robin), a animação da equipa da Dreamworks deu ao filme um visual solarengo e de ritmo «abelhesco» (que se assemelha muito ao Taylorismo). A voz agradavelmente idiossincrática do comediante ajusta-se na perfeição ao tom casual e ligeiro que caracteriza a história. A estrela da comédia transfere a sua persona para Barry B. Benson, uma abelha que critica e questiona o mundo dentro da colmeia. Insatisfeito por ter de ficar perpetuamente amarrado ao duro e ininterrupto trabalho da colmeia, faz uma viagem espontânea com o batalhão do pólen ao mundo exterior, encontra uma rapariga (sim, uma rapariga humana, interpretada por Renée Zellweger) e, em conjunto, processam a humanidade por roubarem, injustamente, o mel que é por direito das abelhas.


“Bee Movie – A História de uma Abelha” é um filme visualmente brilhante, activo, estimulante, colorido e por vezes com algum humor negro (nunca veríamos um pacto de suicídio num filme da Disney). Lá bem no fundo, a história pode ser comparada a “The Graduate”, em que o recém-licenciado Barry, é pressionado pelos pais aparentemente judeus (Kathy Bates e Barry Levinson) a encontrar um trabalho e assentar na existência pacata da vida na colmeia; até há uma cena na piscina (de mel) como no clássico de Mike Nichols.

A juntar à dupla principal estão as vozes de Matthew Broderick, Patrick Warburton, John Goodman, Chris Rock, Oprah Winfrey, Larry King (a fazer de Bee Larry King), Ray Liotta e Sting (ferrão).


Apesar de o humor não ser hilariante (é possível que a expectativa de ver um novo episódio de “Seinfeld” tenha sido demasiado elevada), é o suficiente para deixar miúdos e graúdos de sorriso posto, pela fantasia de vermos humanos a falarem com insectos e pela mensagem de tolerância para com aqueles que são diferentes de nós mas equilibram o delicado funcionamento da natureza. O toque de Jerry Seinfeld é notório (“Why do girls put rings on their toes?... It’s like putting a hat on your knee”). Ele pode não estar a actuar ao vivo, mas a qualquer momento pode agarrar o microfone. É aproveitar e rir destas suas últimas pérolas.





Pedro Xavier

terça-feira, 10 de junho de 2008

[REC]

[REC] é o último de um conjunto de filmes cujos eventos são revelados ao espectador através do olhar instável de uma câmara portátil. No entanto, só porque já se viu esta maneira de se fazer cinema há quase uma década atrás em The Blair Witch Project e também nos mais recentes Diary of the Dead e Cloverfield, não quer dizer que o impacto seja menor. [REC] é um emocionante e genuíno filme de terror em todas as componentes. Os realizadores Jaume Blagueró e Paco Plaza condensam todos os ingredientes necessários (leia-se obrigatórios) de um filme de terror clássico: ambiente claustrofóbico, falsa esperança e paranóia entre os protagonistas e um final niilista.


Vencedor do Fantasporto e de outros festivais de cinema, [REC] teve a sua estreia nas salas portuguesas a 10 de Abril deste ano e conta a história de uma equipa de TV que acompanha uma patrulha de bombeiros em serviço durante a noite. Por vezes as noites são calmas e nada acontece. Na noite da acção do filme, são chamados para resgatar uma senhora idosa que se encontra a gritar e trancada no seu apartamento…

As interpretações são, de facto, uma grande mais-valia para a credibilidade do filme, das quais se destaca, naturalmente, a de Manuela Velasco (a repórter Ángela) - parece nunca parar de correr - cuja mudança de atitude histérica de “continua a gravar, temos de mostrar isto ao mundo” para vítima do que naquele prédio se passa é totalmente viável e convincente.




A história que dá vida a [REC] não é de certeza a mais original mas, pela localização da acção e pelo seu cariz low-budget, tornam-no num emocionante, tenso e genuíno filme de terror, que nos dará dar saltos do sofá. O remake americano, Quarentine, chega no final do ano. Fiquemos pela versão espanhola.







Pedro Xavier

Poster - Le Mépris (1963)

Considerado um dos pais mais influentes e audaciosos da Nouvelle Vague, Jean Luc Godard apresentou, em 1961, o “Desprezo”. Godard procurava, tal como os todos os realizadores que marcaram este emergente período da história do cinema (Louis Malle, Alain Resnais, François Truffaut, Eric Rohmer), maior liberdade de produção e encenação e, também, uma autenticidade mais acentuada das personagens, afirmando a especificidade da linguagem cinematográfica, a qual se achava então muito agarrada às convenções teatrais.

Devido ao facto de ter sido crítico na mítica revista de cinema Cahiers du Cinéma, podem ser encontradas em “Desprezo” inúmeras referências fílmicas a Chaplin, Griffith, Hawks e Minelli, entre outros. Não é por mero acidente que o já veterano realizador alemão Fritz Lang (“M”, “Metropolis”), faz dele próprio no filme de Godard. Embora seja a partir da personagem de Michel Piccoli que a intriga desperta, é em torno de Camille (Brigitte Bardot) que ela se desenvolve. E o desprezo? É o que Camille sente pelo marido… Este filme é um dos mais inteligentes, sofisticados e visualmente mais apetecíveis do realizador francês.




Pedro Xavier

segunda-feira, 9 de junho de 2008

A Grafologia, por Herbert Hertz


É interessante saber que existe uma ciência que estuda a relação entre a escrita e a personalidade de quem escreve. Disto nos fala A Grafologia de Herbert Hertz. Tratando-se de uma ciência auxiliar da psicologia, aplicada a áreas como a pediatria, a criminologia ou a orientação profissional, representa também algum interesse para quem deseje saber mais um pouco de si mesmo ou dos outros.

Como qualquer ciência que estude o Homem, ela não é (nem nunca será) perfeita. Na verdade, a existência de uma infinidade de casos, sempre diferentes, sempre muito particulares, impedem uma esquematização absoluta. Já se sabe, há sempre uma excepção. Pode-se, no entanto, estabelecer algumas regras gerais, que se apliquem em variados casos. São essas regras que nos são explicadas por Hertz.

A escrita é definida como "expressão gráfica do pensamento, visto que o acto de escrever não é mais que um movimento da mão orientado pelo cérebro".

Essa escrita é analisada a partir de diversos factores, tais como a forma, a direcção, a pressão, a velocidade, a continuidade, a disposição, a dimensão, a ordem, a harmonia, entre outras.

Tal como qualquer ciência (a medicina, por exemplo), também a grafologia foi inicialmente englobada nas ciências ocultas (ainda para mais, é uma ciência pouco concreta), tendo sido alvo do espírito céptico de muitos homens. Mais tarde, as bases científicas da grafologia foram claramente definidas e as experiências devidamente controladas, de tal modo que já foi instituído um diploma de Estado de Grafologia.

Sara Toscano

domingo, 8 de junho de 2008

sábado, 7 de junho de 2008

Duffy


Confesse-se, os primeiros sinais não foram os mais auspiciosos. Catalogada por diversos meios jornalísticos como mais uma nova Winehouse, Duffy assemelhava-se a um pedido de ajuda de uma alma pobre. No entanto, a jovem Galesa possui algo que Amy não tem e de que se pode orgulhar: o primeiro single ‘Mercy’, resultado de uma alma pastiche dada pela sua exuberante voz nórdica.

O seu ritmo, que nos leva a levantar o pé do chão, é ligeiramente enganador uma vez que o disco, Rockferry, é preenchido por baladas soul. Duffy conseguiu organizar um álbum repleto de sinfonias pop, com um estilo e glamour que faz lembrar a música dos anos 60, percorrendo toda uma gama, do lounge (‘Hanging on too long’, ‘Stepping Stone’), ao mais rico e melodramático pop (‘Distant Dreamer’, ‘Warwick Avenue’, ‘Rockferry’). O que a Rockferry falta de original – é um exercício de replicação e não de inovação – é compensado pela boa maneira de fazer música, cujo primeiro e fundamental passo é dar atenção às letras.

Como convém a um disco que começa com ‘Rockferry’, um triste e perturbante relato sobre seguir em frente, e termina com ‘Distant Dreamer’, uma música em tons de épico que deixa em aberto tudo o que Duffy quer fazer com a sua vida. Rockferry, o disco, é uma jornada musical ao mesmo tempo triste e emocionante, a primeira assinatura do talento musical de Duffy.

Sítios: Oficial, AllMusic, MySpace




Pedro Xavier

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Annie Hall (1979)

A jeito de continuação do post anterior, estava na cara que o próximo filme a ser revisitado para a review da semana seria Annie Hall.

É usual pensar em Annie Hall e em Manhattan como dois filmes em tudo quase semelhantes. Ambos têm como pano de fundo a cidade de Nova Iorque e são ambos sustentados pelos alicerces de pequenas intrigas amorosas que giram à volta de neuróticas e agridoces peripécias românticas, incidindo na aparente impossibilidade de encontrar o amor derradeiro. Ambos estrearam na década de 70 do século passado, respectivamente 1977 e 1979. Muito discutivelmente, este é considerado o período em que Woody Allen teve o seu maior pico de criatividade e originalidade.


Contudo, enquanto Manhattan é nas suas vísceras um filme sensual e contemplativo, é muito mais romântico do que cómico. Por outro lado, Annie Hall é assumidamente hilariante, com um gosto adocicado dado pelo romance entre Alvy Singer (Woody Allen) e Annie Hall (Diane Keaton). Estruturalmente, Annie Hall – o filme - lembra-nos um de Federico Fellini (Amarcord, 8 1/2) na sua qualidade mais autobiográfica, em tons característicos de comédia camuflada. A narrativa tão simetricamente pouco linear de Annie Hall discorre de acordo com os caprichos do narrador. Alvy Singer não é mais do que uma personalidade homónima de Allen que, à medida que a narrativa se desenvolve em forma de auto-crítica, se dá a conhecer – os 15 anos que Alvy passou em terapia revelam que é, entre outras coisas, paranóico, neurótico, possessivo e xenófobo em relação a qualquer coisa que não é Nova Iorquina – e nos conduz simpaticamente à fábula do seu romance.

A obsessão de Alvy na gradual deterioração da sua tão queria Nova Iorque e a crescente aversão à cultura (ou falta dela) da Califórnia, fornecem a base psicológica em que assenta este moderno conto de amor. Annie, como objecto de desejo de Alvy Singer, é uma figura tão incerta e desorganizada tal como como uma mistura de amor genuíno com loucura (ninguém diz la di da) que, no meio deste ambiente neurótico, não admira que necessite de fumar erva antes de ter sexo com alguém.


À medida que Allen nos dá a conhecer os romances falhados de Alvy, permite que haja uma intromissão de Singer no filme para comentar, sarcasticamente, as fraquezas daqueles que o rodeiam. Irrita-se particularmente com o falso intelectualismo que o rodeia. No entanto, assim como é duro consigo e com os outros, o seu criticismo não é nada condescendente.

É admirável que Allen consiga misturar todos estes honestos ingredientes num único filme e, ainda assim, torná-lo divertido. Não é de admirar que Annie Hall tenha vencido a tão cobiçada estatueta dourada (Woody não apareceu para a receber), no ano em que Star Wars revolucionou todo o conceito de entretenimento cinematográfico.





Pedro Xavier

terça-feira, 3 de junho de 2008

La di da

O site de cinema rottentomatoes, conhecido por ter uma base de dados gigantesca de críticas a filmes, organizou um top para as "20 Most Iconic New York Women". De entre todas as nomeadas destaca-se a vencedora, Annie Hall, a personagem criada por Woody Allen para o filme homónimo de 1977, interpretada por Diane Keaton.

No ano de 78, Annie Hall levava para casa os principais prémios da Academia - Melhor Filme, Melhor Realizador (Woody Allen), Melhor Actriz Principal (Diane Keaton), Melhor Argumento Original (Woody Allen e Marshall Brickman) e ainda a nomeação de Melhor Actor (Woody Allen).

Em baixo encontra-se a descrição (do site rottentomatoes) para vencedora e ainda um vídeo que reúne os melhores momentos de Annie.

"Like Holly Golightly, she floats, sometimes unmoored. Like Katie Morosky she's strong willed. Annie Hall is the unattainable fantasy. Part of what her boyfriend, Alvy Singer (Woody Allen), loves about her is that she's never totally given to him, and we don't really gain complete access to her either. She trumps the intellectually vainglorious Alvy(and he can be a pill) but outside of that skill set she's just a girl trying to figure herself out in a city big enough to swallow you if you're not careful. She's hard to pin down, harder to figure out, and like our other enigmatic New Yorkers, easy to see yourself in."



Pedro Xavier

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Poster - Lolita (1962)

«Como é que fizeram um filme de Lolita?» Esta era a pergunta do poster e do trailer de 1962. Nesse ano Stanley Kubrick («2001 Uma Odisseia No Espaço», «A Laranja Mecânica», «Eyes Wide Shut») apresentou a adaptação do romance proibido de Vladimir Nabokov e entregou os principais papéis a James Mason e a Sue Lyon, a heroína do romance. A origem do nome para a mulher-criança «Lolita» é «lolipop» (chupa-chupa), como o vermelho que Sue Lyon chupa enquanto usa óculos de sol em forma de coração.

Após um minucioso trabalho, Stanley Kubrick conseguiu iludir os olhos cegos da censura e apresentar um guião, mesmo assim, absolutamente erótico (era isso que estava em causa) da obra do escritor russo.

Pedro Xavier

domingo, 1 de junho de 2008

Cassandra's Dream - O Sonho de Cassandra (DVD)

O filme estreado a 10 de Janeiro deste ano não me podia deixar indiferente. Apesar de não o ter ido ver ao cinema, foi com alguma ansiedade que esperei o seu lançamento em DVD para finalmente o poder ver. Para além do mais, era um Woody Allen, um dos últimos grandes cineastas vivos.

Ian (Ewan McGregor) e Terry (Colin Farrell) são dois irmãos que, oriundos de uma modesta família de Londres, sonham em ter uma vida melhor. Enquanto Terry vive sob o peso dos vícios (apostas e bebida), Ian tenta levar uma vida de luxo em alta sociedade a partir do momento em que conhece Angela (Hayley Atwell). De maneira a resolver os seus problemas financeiros – Ian não consegue sustentar a sua ostensiva vida e Terry endividou-se num jogo de poker - recorrem à ajuda financeira do tio Howard (Tom Wilkinson), o exemplo familiar de sucesso constantemente citado nas conversas da mãe (para ódio do pai). Howard acede ao pedido mas com uma condição: quer que os rapazes assassinem um ex-colega de trabalho que, de convicção inabalável, pretende testemunhar contra ele pela sua falta de ética no seu negócio (cirurgias plásticas). Estupefactos pela proposta, os dois irmãos terão agora de lidar com o quanto realmente precisam do dinheiro.


Uma das características de Woody Allen, enquanto cineasta, é a sua meticulosa maneira de escrever. No entanto, o guião de Cassandra’s Dream pode ser considerado como um caso extraconjugal do realizador . São páginas seguidas de diálogos, em que a escolha de algumas palavras seria o suficiente. O objectivo de Allen não é escolher palavras valorosas mas sim, através delas, reproduzir um ambiente vertiginoso de confusão e relutância, numa abordagem semi-teatral que põe Ian e Terry em permanente diálogo, a debater todos os seus pequenos impulsos. Ewan e Colin são os violinos desta orquestra. Pode-se dizer que Colin Farrell apresenta-se no seu melhor, conseguindo convencer uma profunda angústia simplesmente por uma nervosa expressão facial. Com Ewan McGregor, no papel de eterno optimista, há uma interacção familiar espantosa entre os dois irmãos, por vezes fazendo brilhar a prosa de Allen.


A brilhar, mas à sombra do triunfo de 2005, o mórbido e violento Match Point (a meu ver, a sua última obra-prima), Woody Allen continua fascinado com a fraqueza humana em nome da sobrevivência individual. Tal como em Scoop, não deixa de dar duplos sentidos e referências icónicas aos elementos da sua obra. Não é por acaso que Cassandra é o nome do barco dos irmãos. À parte a origem mitológica, ser Cassandra nos tempos modernos é ser considerado modelo referente à tragédia, o arquétipo de uma personagem profética aterrorizada por uma obscura insanidade. O recheio do filme – a discussão ética que levará ao homicídio – não é mais do que um cânone clássico de uma tragédia grega, reproduzido por Allen com o intuito de revelar os aspectos mais negros da natureza humana. A interpretação de Colin Farrell não é mais do que a representação amoral de uma consciência pesada. Os pontos fortes do filme estão escondidos no processo de decisão do homicídio, no trauma psicológico e na escolha de uma saída de fuga à culpa.

Woody Allen é um génio na comédia, embora com uma ou outra costela com gosto pelo escuro e pelo macabro. Cassandra’s Dream não é o seu trabalho mais forte, mas oferece ao espectador uma atitude paranóica recheada de suspense.





Pedro Xavier