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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Ensaio Sobre a Cegueira Pelos Olhos de Fernando Meirelles



O recente Ensaio Sobre a Cegueira de Fernando Meirelles, baseado na obra homónima de José Saramago, é, ironicamente, um filme com uma visão diferente, fria, dura, quase cruel.
Quando digo "visão", refiro-me precisamente à forma do realizador desconstruir todo um código visual de planos aos quais estamos tão habituados.

Na verdade, faz todo o sentido. Quando um realizador faz um filme, coloca a câmara tendo em conta o olhar das personagens, as linhas de força, os eixos. Num diálogo, todos estamos habituados ao famoso campo/contracampo. Mas nada disto poderia ser feito num filme onde os personagens são cegos. Este seria, aparentemente, o maior dilema de Fernando Meirelles.

A fuga à escala clássica de planos, o desfoque e a saturação das cores frias foi, sem sombra de dúvida, a solução ideal para o problema dos pontos-de-vista. Para além do mais, enchem de significado o desenrolar do enredo e imprimem uma marca muito pessoal ao filme.

É um filme que vive da força das imagens. E é isso mesmo que faz de Fernando Meirelles um realizador fora de série (a capacidade extenuante de encher de sentimento todos aqueles planos, contando-nos uma história que vive essencialmente daquelas imagens tão fortes, tão vivas).

O Ensaio Sobre a Cegueira é uma obra de arte.




Sara Toscano

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Doomsday

Este filme de Neil Marshall (realizador e guionista do mesmo) assenta no pressuposto “a humanidade tem a sua data de validade”. Para um filme que não é mais que tudo aquilo que já toda a gente viu, Doomsday não cansa, nem é uma perda de tempo: pelo contrário, dentro de toda aquela “impossibilidade” em termos de argumento ou género, consegue prender-nos à cadeira, levando-nos a revisitar universos que tão bem conhecemos de toda a nossa cultura visual, sem que nunca os tenhamos imaginado juntos, num mesmo espaço e tempo fílmicos. A ideia do vírus letal que infecta milhões de pessoas e mata centenas, já está muito vista; no entanto, “in the land of the infected, the immune man is king” é um conceito poderoso. E Rhona Mitra é perfeita para o papel.

Doomsday é muito bom ao levar as personagens (especialmente Eden Sinclair e Sol) ao seu limite, explorando muito bem as forças antagónicas que os impedem, incessantemente, de atingir os seus objectivos.
O arco da história (negativo – positivo – negativo) está muitíssimo bem conseguido, demonstrando uma grande evolução na personagem principal (Eden) que, enquanto no início do filme é levada para fora da zona de quarentena (e para longe da sua mãe), no final opta por permanecer lá, como numa tentativa de alterar o rumo que a história dela levou.

Pontuado com um humor deliciosamente negro, a apresentação da personagem de Eden, muito visual, funciona na perfeição, fornecendo todos os dados necessários à compreensão das motivações e consequentes atitudes que vai tendo, e das opções que toma, facilitando não necessariamente uma simpatia instantânea pela personagem, mas, definitivamente, uma grande empatia. A energia do argumento é inesgotável (ou assim parece), as referências a filmes como Os Salteadores da Arca Perdida tornam-no numa pequena delícia para os mais aficcionados do cinema; em termos técnicos não tem grandes falhas e o ritmo da montagem está em conformidade com a acção. A capacidade de surpreender o espectador é inesgotável, sendo considerado por muitos um “roçar no ridículo”. Talvez seja disso mesmo que o filme vive, de outra forma não se poria a questão “se não fosse daquela maneira, será que funcionava?”

De notar, no entanto, o fraco trabalho de personagens secundárias, que não chegavam a trazer nada de novo ao mundo ali idealizado (não digo todas, mas, por exemplo, afinal quem eram todos aqueles que acompanharam Eden à zona de quarentena? Por que foram lá? Porquê eles e não outros?); talvez também o clímax e a resolução deixem um pouco a desejar, no sentido em que toda a história é construída com vista àquela acção final que, podendo deixar as coisas em aberto, não deixa nunca dúvidas em como as coisas não poderiam terminar doutra maneira.

De um modo geral, e para quem falhou a estreia aquando do festival de terror (Motelx), Doomsday é uma obra que deve ser vista e apreciada, livre de preconceitos.






Sara Toscano

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Beowulf (DVD)

O filme Beowulf de Robert Zemeckis pode ser visto de duas maneiras: sobre o que trata e como lá chega. A história do guerreiro viking Beowulf data de há séculos e foi passada de geração em geração até ser lida nas escolas. Adaptada por Neil Gaiman (“MirrorMask”) e pelo co-argumentista de Pulp Fiction Roger Avery, conta a viagem de Beowulf à Dinamarca com os seus cavaleiros, os Thanes, para vencer o monstro Grendel que aterroriza o reino do rei Hrothgar e como Beowulf enfrentou a tentação da sedutora mãe de Grendel.

Zemeckis conta a história de maneira tão atractiva que, desde o primeiro instante, nos prende a atenção. Através de animação de computador foto realista, o filme capta as texturas de maneira brilhante. A madeira do salão do rei Hrothgar, os dentes afiados e a carne de Grendel, o cabelo da rainha Wealthow, o líquido que escorre pelo corpo nu da mãe de Grendel e muito mais. A animação traz ainda elementos da lenda para a magnitude do grande ecrã, tais como a luta de Beowulf com o dragão.

É, no entanto, o elemento humano que mais causa perplexidade. Zemeckis conseguiu reunir um impressionante elenco de luxo para dar corpo e voz às personagens: Ray Winstone como o valente guerreiro Beowulf, Anthony Hopkins como o velho rei Hrothgar, Robin Wright Penn como a bela rainha Wealthow, Brendan Gleeson como o fiel tenente Wiglaf e Angelina Jolie como a bruxa sedutora e mãe de Grendel. Zemeckis usou tecnologia motion-capture – pôs os actores vestidos com fatos repletos de pontos, filmou-os e colocou a informação do seu movimento e posição em computador. Esta tecnologia já antes tinha sido usada em 2004 em Polar Express.

Beowulf, o filme, aparte os espantosos efeitos visuais e virtuoso elenco, não passa de um mediano filme de acção. O surpreendente na história está no argumento, na introdução da vulnerabilidade e da fraqueza humana por detrás da lenda. Desejo, traição e culpa fazem parte do centro psicológico de Beowulf, dando à luta final com o dragão algum significado freudiano. Já Woody Allen tinha dito em Annie Hall “Just don't take any course where they make you read Beowulf”.





Pedro Xavier

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Esta Semana no Cinema...

O texto seguinte foi publicado no blog Deuxieme a 25 de Julho de 2008, com o título: «Estreias da Semana».


O CAVALEIRO DAS TREVAS

A segunda aventura de Batman, novamente concebida pelo olhar de Christopher Nolan, é um objecto que rebenta – literalmente – com todas as ideias e barreiras de conceito da personagem, do seu universo e da adaptação cinematográfica de BD. “O Cavaleiro das Trevas” encaixa na perfeição, sem perder tempo com apresentações, no encadeamento de “Batman – O Início”, (um dos filmes maiores de 2005, munido de fazer um reset ao passado do herói, alimentado anteriormente pelo delicioso expressionismo gótico de Tim Burton e pelos duvidosos circos de néon de Joel Schumacher) e consegue a soberba proeza de ultrapassar todas as qualidades do capítulo anterior, resultando numa magnífica sequela, em tudo superior.

Estamos, garantidamente, perante “a encenação cinematográfica definitiva do Homem-Morcego”, como Jorge Mourinha escreve hoje no Público. De facto, “O Cavaleiro das Trevas” é um novo passo no mundo de Batman e do cinema dos super-heróis, onde tudo gira em Gotham City, uma metrópole com identidade própria, que surge como pano de fundo da acção, e que é tomada de assalto pela personificação do mal absoluto, tornando-se num palco de luta entre o bem e o mal (parecenças com Heat não surgem à toa e são justamente bem empregues), onde o medo e o caos iniciam a sua proliferação pelas mentes e corpos dos cidadãos, que discutem os termos de justiça entre si mesmos e não com as autoridades, que questionam continuamente.


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Existem dois vértices vitais na composição d’ “O Cavaleiro das Trevas”. O primeiro manifesta-se claramente – e num grau de importância superior – nos seus criadores, a dupla dos irmãos Nolan. Jonathan e Chris escreveram o guião, no curto espaço de um ano, com uma noção de dramaturgia e tragédia acima do normal, e que se exprime em dois importantes pontos: o facto de terem composto esses elementos em personagens oriundas da BD, ao mesmo nível com que exploram tudo isso numa base real, num subtil tom pós 11 de Setembro e que pinta soberbamente a realidade em que vivemos e onde as personagens dos comics também mostram ter lugar. Para além da força estrutural do guião, é de salientar a sóbria, mas imponente, realização de Chris, onde o mais curioso ponto de análise surge numa mudança de estilo face ao capítulo anterior (uma mise-en-scène mais clara e elaborada, um ritmo mais pausado e planos verdadeiramente saídos de vinhetas da BD) e no uso da cor (o castanho ferrugento d’ O Início é aqui substituído por um azul hipnótico, e a grandiosidade da acção e a visão caótica e violenta do espaço urbano remete-nos para o melhor de Michael Mann).

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O segundo vértice deste capítulo estende-se ao brilhante trio de personagens principal. Batman é-nos trazido uma vez mais por Christian Bale, que veste e acompanha, com naturalidade e segurança, a maturidade da pele do Homem-Morcego, e que vive aqui dias de amargura e um teste à sua força interior, nunca antes explorado. O seu sentido de justiça e motivação incorruptível mantém-se a todo o custo, mas isso e a obsessão por uma vida normal vão levar consigo um preço muito elevado. Na mesma estrada, encontramos do lado oposto o maior vilão de sempre: Joker, interpretado pelo falecido Heath Ledger. Sem exageros, confirma-se que Ledger é verdadeiramente assombroso, genial, abismal; falamos de uma das maiores composições de uma personagem dos últimos 25 anos (ao nível de um Hannibal Lecter), ele é o rosto maior do caos e da anarquia, e também é, sem dúvida, a maior encarnação de Joker do grande ecrã (sem menosprezo pelo fabuloso Jack Nicholson), que testa constantemente a identidade e sanidade de Batman. Para além do brilhante trabalho do actor, é formidável a forma como ele nos surge e como se mostra; cada origem das suas cicatrizes remete-nos para um passado turbulento e sombrio (curiosamente relativo a comics tão conhecidas como o caso de Piada Mortal, na história da esposa), que funciona perfeitamente para concebermos a deturpada existência do personagem, sem que seja necessário mostrar flashbacks ou utilizar outros meios e quebrar a soberba narrativa, o que nos mostra o Joker como “pleno e absoluto”, pelas próprias palavras de Chris Nolan (Sam Raimi que olhe bem para este exemplo no futuro). Por fim, Harvey “Duas Caras” Dent, surpreendentemente interpretado por Aaron Eckhart, é uma personagem de enorme força ao longo de todo o filme. Falamos de si num registo de tragédia grega, onde a sua perda, sofrimento e transformação valem a Eckhart um dos seus melhores momentos no cinema até hoje. O final dúbio da sua existência não deixa de valorizar o seu lugar numa cidade corrupta e refém do mal, onde o sacrifício se apodera dos inocentes e dos mais bravos.


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Ao olharmos para este leque de mentes atormentadas, verificamos que estas 3 peças vivem interligadas entre si, de uma forma indissociável; se olharmos perto, Batman e Joker são duas faces da mesma moeda – uma infância traumática e abusiva – que se verifica uma linha ténue sobre a fronteira entre o bem e o mal, culpada pelo nascimento de Harvey “Duas Caras” Dent (seja pela malvadez aliciante de Joker como pela inacção de Batman); ao mesmo tempo temos a proeminente questão do nosso herói se debater ferozmente com as “duas caras” da sua própria existência, ao questionar (em conjunto com a cidade que o viu nascer) a sua missão de justiceiro, em simultâneo com o seu lugar de homem que nela quer viver – todos estes dilemas e mistérios, ainda que irónicos, são tudo menos inocentes, e resultam de uma forma absolutamente notável e eficaz, e que pedem ao filme uma segunda ou terceira revisitação, que se torna mais rica.

São inúmeros os momentos fenomenais deste filme, mas entre eles destacam-se o interrogatório a Joker, a conversa de Joker com Harvey no Hospital e ainda o encontro final entre Batman e Joker. Além disso, Hans Zimmer e James Newton Howard compõem uma banda sonora de enorme peso (o tema do Joker é assustador), Nolan filma como poucos, o elenco é todo ele fabuloso (ainda que a beleza e inocência de Katie Holmes não seja igualada por Maggie Gyllenhall, que é, apesar disso, muito competente), o argumento é negro, sólido e complexo e os fardos a carregar são cada vez mais pesados, numa Gotham que está a saque. A maior graça é que tudo isto está a ser “vendido” às massas como um blockbuster mainstream, mas na verdade é tudo, mas mesmo tudo, menos isso.


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Em suma, para além de um verdadeiro épico mascarado de rostos grotescos e almas feridas (onde os géneros noir, policial e thriller se misturam avidamente), Christopher Nolan vai mais longe ao elevar a missão de Batman a um julgamento – até que ponto pode coexistir a justiça institucionalizada com a pessoal, e o que o separa do Joker além dos motivos – e dá-nos um enorme tratado sobre a vingança e as noções de perdão e sacrifício, tão sombriamente encaradas ao longo de duas horas e meia de grande cinema, onde a força da BD se mistura com a problemática realidade do terrorismo global, e que culmina num negro e poderoso final. Uma obra-prima.




Francisco Toscano Silva

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Cloverfield - Nome de Código Cloverfield (DVD)


Manhattan tem sido, na maioria das vezes, o alvo preferencial de realizadores dos chamados filmes de apocalypse. Pelo que se tem visto até aos dias de hoje, já dá para retirar uma ideia acerca da qualidade do filme (lembro-me do absurdo Godzilla). No entanto, com alguma inspiração no 11 de Setembro, um ritmo ofegante e um medo oculto, o mais recente filme do realizador Matt Reeves irá ressoar pela história do terror na cidade de Nova Iorque, tal como nenhum outro alguma vez o conseguiu.

Cloverfield é, essencialmente, um filme feito de câmara ao ombro, tal como se viu no sobrevalorizado Blair Witch Project e no mais recente vencedor do Fantasporto, [REC]. O filme segue de perto um grupo de jovens em busca de uma amiga presa num edifício, depois de um monstro ter saído do mar e decapitado a cabeça da Estátua da Liberdade, enviando-a para as ruas a meio do lower East Side. Se bem que não se diga, este acaba por ser o momento mais simbólico do filme produzido pelo criador da série televisiva Lost, J.J. Abrams. Tal como naquela trágica manhã de Setembro, a queda de um símbolo da cidade (na realidade é a queda do valor essencial que representa o alicerce máximo da sociedade norte-americana) conduz o espectador por uma exaustiva réplica do pânico generalizado que se gerou, então, nas ruas de Nova Iorque.

No geral, Cloverfield é rápido, pessoal, imediato e cheio de fumo e fuligem. Porque nada aconteceu se não for gravado numa câmara (toda a gente o sabe) é fundamental que este objecto de culto do século XX siga todos os passos das personagens, todos os esguichos de sangue, todos os dramas, romances e histerias, como se fosse um reality-show. Assim como um mau filme costuma ser, Cloverfield segue o caminho oposto: não oferece respostas, mas oferece quase 90 minutos de entretenimento. Já há o cheiro a sequela no ar…




Pedro Xavier

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Wanted

Wesley Gibson (James McAvoy) representa a atípica ideia do ser humano mais chato à face da Terra. Tão chato que nem ele próprio consegue encontrar nada relativo ao seu nome no Google. Tem um trabalho que odeia, uma chefe insuportável e a namorada trai-o com o seu melhor amigo. Quando Fox (Angelina Jolie) o encontra na farmácia local e o salva de um assassino chamado Cross (Thomas Kretschmann), segue-se uma perseguição pelas ruas de Chicago que desafia todas as leis da física. Wesley é apresentado a um grupo de rufias que pertence à Fraternidade – uma secreta sociedade milenar de assassinos cujo intuito é “limpar” o mundo dos bandidos e de todas as coisas más (atenção: eles são todos tão bonzinhos). Após uma breve relutância, Wesley aceita que é filho de um antigo membro e, para ser admitido no clube, leva uma data de sovas, facadas e faz um intensivo treino de armas de maneira a conseguir desviar as balas (ou enviá-las “com efeito”).

O filme é baseado na banda desenhada de Mark Millar. Os fãs, intrigados pelo conceito de assassinos de mau carácter serem os super-heróis do mundo, só podem ter ficado decepcionados com esta versão clonada do Matrix, repleta de lugares-comuns, sem qualquer traço de qualidade filosófica e (não pedindo mais) sem aquela ingenuidade que os irmãos Wachowski deram à trilogia. Como se pode levar a sério um filme onde a divina intervenção dos magnânimos seres criadores do universo é representada por uma máquina de tear, chamada “tear do destino”?

Há duas maneiras, igualmente válidas, de olhar para Wanted: (1) como entretenimento em estado puro - um blockbuster de Verão na sua essência; (2) como um filme, em todas as suas letras. Foi com o estado de espírito da opção (1) que entrei na sala de cinema e, a bem da verdade, passei um bom bocado. Deixei-me levar pela acção bruta na esperança de uma viagem repleta de adrenalina que me fizesse esquecer que estava a ver uma história cujo destino das personagens é decidido por uma máquina de tecidos.

No entanto, vendo o panorama geral a frio, não se pode deixar de dar importância à opção (2). Tal como o tecido do destino, o argumento (Michael Brandt) está repleto de buracos. Falta-lhes dar seguimento, desenvolvimento, profundidade, história, uma relação amorosa. Parece uma novela onde afinal “o meu pai eras tu?” e só falta encontrar uma meia-irmã no final. As personagens, à excepção da de James McAvoy (que bem podia ter sido aproveitada para um filme independente sobre a depressão da moderna american way of life), não têm qualquer carisma: Angelina Jolie está de regresso aos papéis ocos como em Lara Croft ou como em Gone in Sixty Seconds; Morgan Freeman bem se podia ter mantido a fazer de detective (Seven) ou de prisioneiro (Os Condenados de Shawshank) - não se entende como veio aqui parar nem como o seu papel de “chefe” vai intensificar a intriga se não há qualquer duelo; os outros todos são uns canastrões.

Por fim, a intriga dá o twist habitual, previsível em teoria, de fugir na prática. A única coisa a reter deste Procurado, realizado pelo russo Timur Bekmambetov, é o impacto das imagens e os efeitos especiais. De resto, tenham dó.




Pedro Xavier

terça-feira, 10 de junho de 2008

[REC]

[REC] é o último de um conjunto de filmes cujos eventos são revelados ao espectador através do olhar instável de uma câmara portátil. No entanto, só porque já se viu esta maneira de se fazer cinema há quase uma década atrás em The Blair Witch Project e também nos mais recentes Diary of the Dead e Cloverfield, não quer dizer que o impacto seja menor. [REC] é um emocionante e genuíno filme de terror em todas as componentes. Os realizadores Jaume Blagueró e Paco Plaza condensam todos os ingredientes necessários (leia-se obrigatórios) de um filme de terror clássico: ambiente claustrofóbico, falsa esperança e paranóia entre os protagonistas e um final niilista.


Vencedor do Fantasporto e de outros festivais de cinema, [REC] teve a sua estreia nas salas portuguesas a 10 de Abril deste ano e conta a história de uma equipa de TV que acompanha uma patrulha de bombeiros em serviço durante a noite. Por vezes as noites são calmas e nada acontece. Na noite da acção do filme, são chamados para resgatar uma senhora idosa que se encontra a gritar e trancada no seu apartamento…

As interpretações são, de facto, uma grande mais-valia para a credibilidade do filme, das quais se destaca, naturalmente, a de Manuela Velasco (a repórter Ángela) - parece nunca parar de correr - cuja mudança de atitude histérica de “continua a gravar, temos de mostrar isto ao mundo” para vítima do que naquele prédio se passa é totalmente viável e convincente.




A história que dá vida a [REC] não é de certeza a mais original mas, pela localização da acção e pelo seu cariz low-budget, tornam-no num emocionante, tenso e genuíno filme de terror, que nos dará dar saltos do sofá. O remake americano, Quarentine, chega no final do ano. Fiquemos pela versão espanhola.







Pedro Xavier

domingo, 1 de junho de 2008

Cassandra's Dream - O Sonho de Cassandra (DVD)

O filme estreado a 10 de Janeiro deste ano não me podia deixar indiferente. Apesar de não o ter ido ver ao cinema, foi com alguma ansiedade que esperei o seu lançamento em DVD para finalmente o poder ver. Para além do mais, era um Woody Allen, um dos últimos grandes cineastas vivos.

Ian (Ewan McGregor) e Terry (Colin Farrell) são dois irmãos que, oriundos de uma modesta família de Londres, sonham em ter uma vida melhor. Enquanto Terry vive sob o peso dos vícios (apostas e bebida), Ian tenta levar uma vida de luxo em alta sociedade a partir do momento em que conhece Angela (Hayley Atwell). De maneira a resolver os seus problemas financeiros – Ian não consegue sustentar a sua ostensiva vida e Terry endividou-se num jogo de poker - recorrem à ajuda financeira do tio Howard (Tom Wilkinson), o exemplo familiar de sucesso constantemente citado nas conversas da mãe (para ódio do pai). Howard acede ao pedido mas com uma condição: quer que os rapazes assassinem um ex-colega de trabalho que, de convicção inabalável, pretende testemunhar contra ele pela sua falta de ética no seu negócio (cirurgias plásticas). Estupefactos pela proposta, os dois irmãos terão agora de lidar com o quanto realmente precisam do dinheiro.


Uma das características de Woody Allen, enquanto cineasta, é a sua meticulosa maneira de escrever. No entanto, o guião de Cassandra’s Dream pode ser considerado como um caso extraconjugal do realizador . São páginas seguidas de diálogos, em que a escolha de algumas palavras seria o suficiente. O objectivo de Allen não é escolher palavras valorosas mas sim, através delas, reproduzir um ambiente vertiginoso de confusão e relutância, numa abordagem semi-teatral que põe Ian e Terry em permanente diálogo, a debater todos os seus pequenos impulsos. Ewan e Colin são os violinos desta orquestra. Pode-se dizer que Colin Farrell apresenta-se no seu melhor, conseguindo convencer uma profunda angústia simplesmente por uma nervosa expressão facial. Com Ewan McGregor, no papel de eterno optimista, há uma interacção familiar espantosa entre os dois irmãos, por vezes fazendo brilhar a prosa de Allen.


A brilhar, mas à sombra do triunfo de 2005, o mórbido e violento Match Point (a meu ver, a sua última obra-prima), Woody Allen continua fascinado com a fraqueza humana em nome da sobrevivência individual. Tal como em Scoop, não deixa de dar duplos sentidos e referências icónicas aos elementos da sua obra. Não é por acaso que Cassandra é o nome do barco dos irmãos. À parte a origem mitológica, ser Cassandra nos tempos modernos é ser considerado modelo referente à tragédia, o arquétipo de uma personagem profética aterrorizada por uma obscura insanidade. O recheio do filme – a discussão ética que levará ao homicídio – não é mais do que um cânone clássico de uma tragédia grega, reproduzido por Allen com o intuito de revelar os aspectos mais negros da natureza humana. A interpretação de Colin Farrell não é mais do que a representação amoral de uma consciência pesada. Os pontos fortes do filme estão escondidos no processo de decisão do homicídio, no trauma psicológico e na escolha de uma saída de fuga à culpa.

Woody Allen é um génio na comédia, embora com uma ou outra costela com gosto pelo escuro e pelo macabro. Cassandra’s Dream não é o seu trabalho mais forte, mas oferece ao espectador uma atitude paranóica recheada de suspense.





Pedro Xavier

domingo, 20 de abril de 2008

Contrato

“Contrato” é uma adaptação da obra de Dennis McShade, “Requiem para D. Quixote”, e o filme de estreia do versátil actor Nicolau Breyner na realização. Conta com nomes tão conhecidos do público português tais como Pedro Lima, Cláudia Vieira, Sofia Aparício, Vítor Norte, Pedro Granger e José Raposo. A personagem que irá, certamente, surpreender é a de José Wallenstein. O já veterano actor encarna o papel de um travesti que canta músicas da francesa Edith Piaf.


A rodagem demorou cerca de quatro semanas e passou pelos concelhos de Cascais, Sintra, Lisboa, Montijo e Mértola. “Contrato” promete ser, apenas pelas imagens do trailer, um dos melhores filmes de acção português dos últimos anos, que conta a história de um hitman (Pedro Lima) que se vê envolvido num enredo complexo que envolve máfia Nova Iorquina e o chefe da máfia ibérica Georgio Thanatos (Nicolau Breyner). Se isto não for chamariz suficiente, então encham-se as salas para ver Cláudia Veira despida.



Pedro Xavier

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Shyamalan, O Acontecimento

M. Night Shyamalan tornou-se um realizador que não garante o consenso quanto à sua obra realizada. Tanto atingiu, como se costuma dizer, os píncaros, como por ocasiões é deitado abaixo pela crítica, não só a nacional, como a internacional. Por um lado é odiado, por outro louvado como realmente inovador na arte de contar histórias através do grande ecrã.


A filmografia (só a partir de 1999) pode ser dividida em três partes distintas e inconfundíveis, no que diz respeito às reacções que provocaram: 1ª) apenas tem lugar nesta listagem “The Sixth Sense / O Sexto Sentido” (1999), o filme que tirou Shyamalan do desconhecimento pela sua qualidade técnica, artística e por um guião estruturalmente forte, características essenciais para não se proceder à catalogação imediata na secção de maus filmes de terror; 2ª) desta parte pertencem, saltando a ordem cronológica, “Unbreakable / O Protegido” (2000) e “The Village / A Vila” (2004). “Unbreakable” inicialmente foi recebido com alguma relutância por fugir à temática do terror - o que só prova que “Sexto Sentido” foi realmente estrondoso - rapidamente se tornou objecto onírico pela abordagem visceral ao universo dos comics. “A Vila” é, sem dúvida alguma, a grande obra-prima de Shyamalan. Pode-se dizer que, no seu núcleo, voltamos à mesma temática. Há, pois, a abolição do mito em função do despertar da realidade pela criação de (mais uma vez) um herói. Shyamalan é hábil e pródigo ao guiar o espectador numa dada direcção, mudando-lhe o rumo à última da hora; 3ª) Nesta última parte sobram “Signs / Sinais” (2002) e “Lady in the Water / Senhora da Água” (2006). Este último foi tomado como o pior da sua carreira, pelo pretensiosismo que muitos consideravam, incompreensivelmente, Shyamalan ter ganho.



É neste panorama que está planeado, já para o Verão, a estreia do mais recente filme do realizador. “The Happening / O Acontecimento” vai regressar, tal como em “Sinais”, à temática da catástrofe e aniquilação da raça humana (de onde virá a ameaça?). Irá decerto revelar algo mais abaixo da camada mainstream que cataloga este género. O filme conta com Mark Wahlberg no papel principal. Aqui fica o trailer, com a secreta esperança de que o filme se encaixe na segunda categoria acima referia.



Pedro Xavier

quinta-feira, 3 de abril de 2008

The Mist - Nevoeiro Misterioso (parte II)

Depois de ler a crítica do Francisco ao filme e de já ansiar pela sua estreia, fiquei ainda mais curioso sobre como seria caminhar por aquele denso nevoeiro. Após ter saído da sala de cinema, sei que…

…“The Mist” é o que um filme de terror deve ser – negro, tenso e pontuado com o sangue suficiente de maneira a que o espectador mantenha em alerta todos os seus reflexos e sentidos. O realizador Frank Darabont conseguiu produzir uma obra acerca de paranóia, fanatismo religioso e falta de esperança, que pôs para segundo plano (e muito bem!) os monstros que aterrorizam o filme. De facto, o final do filme é tão descomprometido com a obra de Stephen King que só se pode assumir que Darabont teve rédea livre (em conjunto com o autor) para trabalhar nesse final.


“The Mist” é a quarta adaptação cinematográfica que o realizador faz dos romances de Stephen King mas é, de entre eles, o mais virado para o terror - “The Shawshank Redemption” (1994) e “The Green Mile” (1999) fogem completamente à temática de terror que domina os romances de King. O que é bem feito (e também o que o autor pretendeu quando escreveu o livro) é o foco dado às personagens e o evoluir das relações entre elas, mais do que propriamente pôr sangue extra no ecrã ou mostrar monstros mais evoluídos do que até agora temos visto. Pelo final do filme, perguntamo-nos quem serão os mais perigosos e selvagens, se os monstros ou se os humanos.


Em muitas partes faz lembrar “Aliens” (James Cameron, 1986), não só na psicologia das personagens, em que o ser humano pode ser mais perigoso que um pesadelo que o aterroriza, mas também na estética, quando as crias de monstros são expulsas dos casulos que fazem dos corpos humanos capturados.


A maior parte do filme passa-se dentro do supermercado, onde as pessoas estão encurraladas. Aterrorizadas, acabam por se dividir em dois grupos: aquele, liderado por Mrs Comody (Marcia Gay Harden – que interpretação estrondosa!), que acredita no nevoeiro ser um castigo bíblico; e o outro, liderado por David (Thomas Jane – o herói por necessidade) que sabe haver monstros lá fora, mas que rezar não será a sua salvação.


Os efeitos especiais tanto são poderosos como uma fraqueza. Mas a força que guia o filme está na atmosfera criada. Faz lembrar (faz lembrar tantos filmes!) “The Birds” (Alfred Hitchcock, 1963) ou “The Thing” (John Carpenter, 1982). Ambos decorrem em ambientes claustrofóbicos onde, perante a catástrofe, se revela o melhor e o pior do ser humano. Depois de todo o filme, da tensão, do desenrolar da história, não deixa de ser surpreendente o final que, ao som dos Dead Can Dance (“The Host of Seraphim”), nos faz abrir a boca de espanto e arruma completamente todos os filmes de ficção científica que, repletos de lugares-comuns, acabam sempre por… Mais não conto. Há muito que não se via um filme de terror assim. É brilhante!


8/10


Pedro Xavier


domingo, 30 de março de 2008

Die Fälscher - Os Falsificadores

A “Operação Bernhard” foi o plano Nazi para falsificar milhões de libras esterlinas e dólares americanos, com o objectivo de inundar as economias dos países aliados enquanto financiavam o esforço da guerra. No maior esquema de falsificação de sempre, tipógrafos judeus e outros habilitados na arte de copiar falsificaram, no campo de concentração de Sachsenhausen, mais de mil milhões de libras, em notas de 5, 10, 20 e 50, muitas das quais, depois de entrarem em circulação, o Banco de Inglaterra nunca mais voltou a encontrar. No entanto, o seu trabalho no campo de Sachsenhausen impunha aos prisioneiros judeus um terrível dilema moral: quanto mais dinheiro produziam, mais tempo viviam e mais financiavam e fortificavam a posição alemã na guerra.

Enquanto põe esta questão ética aos prisioneiros, o realizador e argumentista Stefan Ruzowitzky dá-nos um drama tenso, intenso e, deva-se dizer, agradável. Ou será desagradável?


A chave para o sucesso de “Die Fälscher – Os Falsificadores” está na escolha do seu herói – ou anti-herói – o único vigarista de entre os artesãos, o falsificador profissional Salomon Sorowitsch (Karl Markovics). O filme começa em 1936 com Sorowitsch, um Judeu Russo em Berlim, a celebrar e a colher dividendos da sua vida de vigarista. Quando é apanhado, é enviado para o campo de concentração de Mauthausen, onde sobrevive alguns anos a pintar os retratos de oficiais das SS.


O oficial Sturmbannführer Friedrich Herzog (David Striesow), encarregado da “Operação Bernhard” e também responsável pela detenção de Sorowitsch, consegue transferi-lo para Sachsenhausen. Separados do resto do campo, os artesãos falsificadores têm camas confortáveis, comida suficiente e música, enquanto continuassem a produzir dinheiro. Ainda assim, conseguiam ouvir os gritos dos restantes prisioneiros do outro lado da cerca.


Interpretado com uma subtileza extraordinária, a personagem do actor Austríaco Karl Markovics, é uma figura complexa: um artista autêntico que prefere falsificar a pintar; um homem pragmático cuja vontade de sobreviver ao fazer tudo o que for necessário para se manter vivo contradiz a sua piedade genuína; a sua figura fria é apenas uma carapaça de um homem que conheceu o sofrimento às mãos dos Soviéticos, antes de emigrar para a Alemanha. Igual ao chefe dos falsificadores, é o comandante Herzog, um Nazi que não acredita na doutrina – há um momento do filme que confessa a Sorowitsch ser comunista – e que, tal como outros, foi apanhado na rede da guerra e seguiu o lema se não os podes vencer junta-te a eles. Embora do outro lado da rede e tal como Sorowitsch, tenta fazer tudo ao seu alcance para sobreviver – esta necessidade torna-se o elo de ligação entre os dois homens.


Também subtil é a realização de Ruzowitzky. Assim como os falsificadores estão isolados da crueldade que abala o resto do campo, também o está o espectador. Quando há uma intromissão, não deixa de ser da mais horrível, que dá a volta ao estômago, tal como se viu em “A Lista de Schindler” (Steven Spielberg, 1993).


Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro este ano, o filme “Os Falsificadores” é uma interessante perspectiva sobre a adversidade moral, física e emocional encontrada nos campos de concentração, vista pelo anti-herói menos comum que se tem encontrado ultimamente.


Ver trailer de Os Falsificadores


8/10


Pedro Xavier


quinta-feira, 20 de março de 2008

Esta semana no cinema...

O texto seguinte foi publicado no blog Deuxieme a 20 de Março de 2008, com o título: «Estreias da Semana».


O AMOR EM TEMPOS DE CÓLERA

Florentino Ariza (Javier Bardem) é um jovem poeta ingénuo que trabalha nos correios, que se apaixona perdidamente por Fermina Daza (Giovanna Mezzogiono), que lhe corresponde. O romance não é bem visto aos olhos do rico e poderoso Lorenzo Daza (John Leguizamo), pai de Fermina, que assim envia a sua filha para junto da prima, longe de tudo e todos durante uns anos. Florentino aguarda, virgem, a chegada do seu amor, mas quando Fermina regressa encara-o com desprezo, recebendo antes o cortejo de Juvenal Urbino (Benjamin Bratt), um médico famoso com quem se irá casar. De coração ferido, Florentino vinga-se na carne de outras mulheres, enquanto espera que Juvenal morra para reconquistar Fermina, que é o amor da sua vida.

Partindo da premissa da aclamada obra do escritor Gabriel García Márquez, o realizador Mike Newell (Donnie Brasco, Harry Potter e o Cálice de Fogo) filma uma belíssima história de amor sob um olhar absolutamente vazio, sem ideias de cinema, preso a um argumento paupérrimo, que faz de um elenco tão prestável um verdadeiro bando de zombies sem alma nem sangue. É uma tragédia ver uma obra literária, tão importante e relevante como esta, ser reduzida a um telefilme com más prestações, grandes cenários meramente figurativos e sem força nem papel na história, captados por uma realização banalíssima, que não desperta qualquer estímulo no mais comum dos espectadores, ao longo das mais longas duas horas e vinte de sempre. A cultura latino-americana é mostrada sobre os mais batidos “clichés” sociológicos, os cheiros e cores das paisagens são uma realidade distante ou quase nula, as cenas de amor e sexo são tão profundas como as da saga Emanuelle, os actores são monólitos de inexpressividade, dirigidos sobre um completo descuido e num tom de farsa terrivelmente penoso de se ver (de salientar ainda que a caracterização das personagens no seu estado idoso é incrivelmente mal conseguida, a qualquer minuto se teme que sobrancelhas ou narizes ou peitos caiam sem piedade para desmascarar o óbvio). Contra todas as expectativas, seja pelo poder da obra de García Márquez ou até pela competência de Newell já verificada em trabalhos anteriores, O Amor em Tempos de Cólera é, desde já, um dos piores filmes que estreou entre nós (a juntar-se às Duas Irmãs Bolena e ao indescrítivel 10,000 AC). E que pena que assim é.

1 / 5


AUGUST RUSH – O SOM DO CORAÇÃO

Evan Taylor / August Rush (Freddie Highmore, que podemos ver actualmente em As Crónicas de Spiderwick) é um menino orfão especial, com um enorme talento para a música. Reduzido ao orfanato e sem amigos, Evan nunca desistiu da ideia de um dia encontrar os seus verdadeiros pais, que não conhece mas imagina nos seus sonhos. Com receio de ser entregue a uma família adoptiva, Evan parte em busca dos seus entes queridos, e depara-se com um mundo que desconhece, que o levará contra um vagabundo oportunista do seu dom (Robin Williams), e o irá fazer enfrentar os seus medos interiores, na luta para encontrar a sua mãe (Keri Russel) e o seu pai (Jonathan Rhys Meyers), curiosamente dois excepcionais músicos que seguiram forçosamente vidas separadas. A música revela-se, por isso, a chave para o seu encontro.

Kristen Sheridan (filha de Jim Sheridan, que escreveu o argumento de Na América) é a realizadora deste interessante filme, recheado de boas intenções, mas que infelizmente se revela fraco, e por vezes lamechas, no passar da sua bonita mensagem. O seu argumento pobre é a principal causa para o desnorte do filme, que contém a acção bem delineada, mas que se apoia em pressupostos e personagens de linhas demasiado maniqueístas (onde Robin Williams surge num registo secundário absolutamente deplorável, quer pela sua interpretação quer pelo conteúdo da personagem, que nos remete para um “cliché” género Oliver Twist) e que deturpam, no seu plot final, uma visão mais humana (com que o filme até arranca de forma interessante) que a acção tomara no seu início, e que se pedia, sobretudo, no fim. Por isso, temos um eterno lugar comum, misto de contos de fadas, de meninos perdidos, mundos muito estilizados, e um inevitável e descarado “happy end”, misturados à deriva de bons costumes e valores familiares nem sempre fiéis à realidade que os circunda. No entanto, tudo isto não invalida o eficaz trabalho de Sheridan no cuidado da narração e evolução das personagens (boa coordenação de flashbacks com acção presente), bem assentes graças também ao bom trabalho de Freddie Highmore, de Keri Russell (mãe que se refaz com pequenos pedaços do filho), e ainda, de Jonathan Rhys Meyers, num registo diferente mas igualmente competente e caloroso.

2 / 5


HORTON E O MUNDO DOS QUEM

Horton é um elefante divertido, dotado de uma enorme imaginação, que habita numa selva muito peculiar. Um dia, Horton ouve, inadvertidamente, um curioso pedido de ajuda, vindo de um grãozinho de pó que flutua pelo ar que é, na verdade, um planeta minúsculo, onde existe uma cidade chamada “Quem Vila”, onde habitam seres microscópicos que ninguém consegue ver. Os "Quem", seus habitantes, pedem a Horton, dotado de uma excelente audição, que os proteja no seu mundo exterior, mas a incompreensão dos outros animais da selva irá causar-lhe um enorme caso de trabalhos.

Baseado nas personagens de Theodor Seuss Geisel (Dr. Seuss), Horton e o Mundo dos Quem é uma deliciosa história, realizada por Jimmy Hayhard e Steve Martino, que se debruça sobre o poder do mais perfeito processo de animação (trazido até nós, neste caso concreto, pelos Estúdios Blue Sky), onde se esconde uma fabulosa e encantadora história de variados contornos sociais da actualidade, bem explorada numa vertente que atinge os públicos mais novos, como também os mais velhos, de igual forma. Num divertido registo, Jim Carrey transporta para Horton os seus mais diversos tiques e manias de representação, e sobretudo, em paralelo com a dimensão física do herói surgem feitos e emergem necessidades de enorme importância humana, ainda que devidamente mascaradas sobre o comum receio pueril e confronto racional, inerentes a todos os seres. Num interessante triângulo de acções, onde Horton colabora com o presidente da Vila dos Quem (o sempre excelente Steve Carell) e enfrenta a Canguru dominadora da selva (Carol Burnett), é-nos fornecida uma luminosa comédia, onde os cenários e os seus efeitos apaixonam os espectadores, bem como os personagens secundários e os seus gags (o grupo de macacos Wickersham munidos de bananas e o abutre Vlad Vladikoff – com a voz de Will Arnette – são claros exemplos), para além ainda do inventivo e mágico argumento, que se apresenta de forma linear e simples, mas bem carregado de uma mensagem nada vulgar, onde o "tamanho" das coisas ganha um papel fundamental. Mais um triunfo do mundo da animação para todos os públicos sem excepção. Na versão portuguesa temos as vozes de João Baião, Vítor Norte, Inês Castel-Branco e Cláudia Cádima.

4 / 5


OS FRAGMENTOS DE TRACEY

Tracey Berkowitz (Ellen Page), é uma adolescente de 15 anos, que se apresenta nua sob uma velha cortina de banho na parte de trás de um autocarro, enquanto procura desesperadamente o seu irmão mais novo, Sonny (Zie Souwand). Numa interminável viagem, Tracey mergulha no seu mundo estilhaçado, onde em pequenos fragmentos se descobre uma família disfuncional, um mundo de fantasias com o seu namorado Billy Zero (Slim Twig) e uma fragilidade humana de enorme escala, onde a verdade e a criação irreal do desejo andam de mãos dadas.

Que Ellen Page é uma actriz absolutamente notável já ninguém tinha dúvidas (é só ver ou rever Hard Candy e/ou Juno, ainda em exibição entre nós), mas ainda assim cada projecto seu comporta uma curiosa questão inicial: que registo esta jovem actriz nos vai presentear? Os Fragmentos de Tracey é, entre várias coisas, uma surpresa; é uma surpresa enquanto objecto cinematográfico, e uma vez mais enquanto representação “solo” de Ellen Page. Sob um formato “fragmentado”, Bruce McDonald (realizador oriundo da TV) conduz-nos num mundo desencantado, onde o ecrã nos surge fragmentado noutros diversos ecrãs, onde a mesma acção ou acções paralelas decorrem, e que nos presenteiam, numa brilhante narrativa não linear, um retrato cruel da viagem de uma jovem, que se vê a braços com a culpa de ter “perdido” o seu irmão pequeno. No seio desta incessante procura encontram-se necessidades de resolução para a sua família disfuncional, para a marginalização da parte dos seus colegas da escola, e para o despertar sexual e onírico que o seu namorado (que encarna os cânones clássicos do “Rock n’ Roll way of life”) lhe provoca; mundos fragmentados que habitam na sua vida desequilibrada. Perante este argumento de tom clássico e de cunho visual arrebatador, esta é uma obra fascinante e de originalidade evidente, que nos mostra novos caminhos do cinema digital e inovadoras vertentes de fazer cinema.

4 / 5

Francisco Toscano Silva

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Expiação

Há momentos – delirantes, lânguidos, românticos – em que “Expiação” parece ter características próprias de um filme clássico. No entanto será que a sua trágica e épica história de amor é demasiado opaca, inerentemente enigmática, de modo a não despoletar os mecanismos necessários a uma divulgação vencedora? Não. De facto, “Expiação” foi um sucesso. O nomeado para Melhor Argumento Adaptado Christopher Hampton e o realizador Joe Wright – que incompreensivelmente não recebeu a nomeação para Melhor Realizador – decerto tornaram o romancista Inglês Ian McEwan orgulhoso da versão espectacular que puseram no ecrã do seu livro “Atonement”.

Antes da grande noite começar, “Expiação” já tinha recebido dois BAFTA (Best film, Best Production Design) e dois Golden Globes (Best Motion Picture Score, Best Original Score). No encerrar da cerimónia, levou apenas a estatueta de Melhor Banda Sonora Original composta por Dario Marianelli (“V for Vendetta”). Embora tivesse sido aclamado como favorito, a ascensão súbita do filme de Paul Thomas Anderson “Haverá Sangue” e de “Este País Não é Para Velhos” dos irmãos Coen, deitou por terra qualquer esperança da longa-metragem de Joe Wright arrebatar o galardão principal. No entanto, não há margem para dúvidas acerca da qualidade artística e técnica do filme.

Abaixo podemos observar duas sequências, não por serem pedras basilares no avanço da narrativa, mas pela sua beleza e essências antagónicas.

A primeira é fundamental para o desenvolvimento da intriga amorosa das personagens Cee (Keira Knightley) e Robbie (James McAvoy). Cee representa a filha subproduto modernista dos golden twenties e Robbie o sentimento de apego às tradições. Ambos diferem pela sua condição social e, mais que a propósito, é ele que ao por a ária “O Soave Fanciulla” (acto I de “La Bohème” de Puccini) dá a entender, embora em espaços disjuntos, os seus sentimentos. Trata-se de um prelúdio, uma declaração do novo amor encontrado e um rito de iniciação sexual desenvolvido pelo diálogo imaginário que travam um com o outro, num magnífico encontro dado pelo jogo de espelhos e a máquina de escrever e que termina, então, com Cee a retirar do armário um vestido verde – simbolizando o vigor e a frescura da juventude – em alternativa ao vestido negro, representado assim como o distanciamento da sofisticação e do luxo que viria a acontecer. Tal como em “La Bohème”, o final não poderia ser outro senão trágico.

O segundo momento que marca o filme é, como já se sabe, o soberbo plano sequência em que Joe Wright sobrevoa através da violência e do caos provocados por soldados revoltados/felizes (?), à espera de embarcar na praia de Dunquerque. Toda a felicidade do rosto de Robbie é apagada quando se depara com tal cenário, uma camuflagem à representação icónica do desespero e podridão humana face à guerra.

Pedro Xavier

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Juno

A História

Juno (Ellen Page) é uma miúda invulgar cuja personalidade está de acordo com o seu primeiro nome. Chica-espera, espirituosa e demasiado madura para a sua idade – dezasseis aninhos – Juno vê-se confrontada com uma gravidez inesperada, após um encontro sexual com o seu melhor amigo Paulie Bleeker – estavam aborrecidos e tinham de arranjar maneira de fazer passar o tempo. Embora inicialmente se sinta mais inclinada para realizar um aborto, Juno decide não o fazer – convencida que o bebé já teria unhas – e a dar o filho para a adopção.

Esta decisão leva-a a confrontar o pai (J.K. Simmons) e a madrasta (Allison Janney) com a notícia – apenas porque esconder uma barriga durante nove meses seria impossível. Surpreendentemente, os pais recebem a notícia mais ou menos bem – lá bem no fundo sabiam-no mas ter-se metido nas drogas ou em álcool teria sido “menos mal”.

Á medida que o parto se aproxima, Juno receia que o seu relacionamento com Bleeker, por quem esteve sempre atraída mas negando ter sentimentos por ele - para além dos da amizade – se deteorize. Por esta altura, é obrigada a rever o seu compromisso de dar o seu filho aos pais adoptivos Vanessa (Jannifer Garner) e Mark (Jason Bateman), quando o casal parece não ser o potencial “casal perfeito” que julgava ser.

A Equipa

Eis o que se pode dizer após ver “Juno”: a guionista Diablo Cody (ex striper e blogger) é extremamente talentosa. Entende como as pessoas falam, como construir personagens envolvidas numa história atraente que, em vez de cuspirem diálogos inverosímeis, exclamam uma oralidade verdadeira; Jason Reitman provou que o sucesso do seu último filme “Thank You for Smoking” não foi obra do acaso; por último, mas sem menor importância (pelo contrário!), Ellen Page é uma “força da natureza” da representação. Qualquer que seja o papel que venha a aceitar no futuro, Juno será sempre considerado como uma das suas melhores representações. Já tínhamos tido um “cheirinho” do potencial de Ellen Page em “Hard Candy” – uma personagem perturbadora, uma “capuchinho vermelho” mazinha - mas é em “Juno” que salta para outro nível, o campeonato das grandes actrizes.

O Veredicto

Em “Juno”, o cinema encontrou uma improvável e mitológica heroína. Simples mas complexa, bruta mas por vezes meiga, Juno é uma adolescente que triunfa por seguir os seus instintos na complicada fase que é a transição da adolescência para a idade adulta, sem ter qualquer mapa que a guie. Embora este ano não tenhamos os peso-pesados Martin Scorsese, Clint Eastwood e Steven Spielberg na corrida pelos Oscars, temos os irmãos Coen (“No Country for Old Men”) e Paul Thomas Anderson (“There Will Be Blood”) na luta pelos prémios principais. Poderão haver sempre surpresas – o prémio de melhor actriz seria justificadíssimo – mas, não as havendo, “Juno” já é um must see obrigatório (para adultos) e um dos melhores filmes de 2008.

10/10

Pedro Xavier